ARIMANDÍA

Episódios da cidade I

Quando o homem chegou equilibrando um suporte de violão nas costas, o velho o esperava com um livro nas mãos e o sorriso dos comerciantes esquecidos no imenso mercado de literatura usada. Entregou-lhe o calhamaço amarelado como se a transação já tivesse decidida por um provável contato anterior a mim, mas antes que o possível comprador tomasse posse do seu novo produto, o velho notou uma primeira resistência grande o suficiente para impedir sua única venda daquele dia.

– Eu vim com o instrumento hoje, então não vou conseguir levar. Posso voltar amanhã pra pegar? – questionou o rapaz. Havia um ar de convencimento entre ele, eu e as obras empilhadas nas gôndolas anciãs.

– Eu não vou estar aqui amanhã – sentenciou o velho – Mas você pode deixar pago e só buscar depois.

Aparentemente, a troca estava feita: havia benefício mútuo das partes, uma admitida e ínfima taxa de lucro, o desejo satisfeito do homem diante da mercadoria e uma solução paralela de pagamento para que ela não deixasse de acontecer.

– É que eu não estou com dinheiro aqui. Só vim com o cartão de débito. Mas olha, senhor, eu quero muito esse livro e volto amanhã para pegá-lo – tentou outra vez o homem. Um silêncio quase palpável entrou pela janela.

– Não precisa. Sabe aquela mulher ali da lanchonete? Vai lá e passa o valor do livro na máquina dela, volta aqui com o comprovante e está tudo certo. Ela é minha amiga – respondeu-lhe o velho.

Definitivamente, Marx estava certo: a mais-valia consegue se ajustar a qualquer situação possível. Voltei-me para um flerte descompromissado com os autores desconhecidos da livraria improvisada, quando o rapaz prosseguiu.

– É que eu não sei se ela passa a bandeira do meu cartão, senhor. Não é qualquer um que aceita Alelo. Mas eu volto amanhã, pode ter certeza! – respondeu.

Claramente impaciente, o velho parecia convencido não pela voz já cínica do rapaz, mas pela necessidade de vender alguma coisa, senão pelo dinheiro, pelo ego de ainda poder contribuir para o PIB do país com a diminuta venda de um livro usado.

– Ela aceita Alelo. Eu almoço lá todos os dias com Alelo – respondeu.

E então, quando eu, o velho, os livros de Proudhon, o silêncio debruçado na janela e uma pomba recém-chegada à calçada não esperávamos nenhuma outra possibilidade que não o ato principal do mercado moderno, do capitalismo em sua essência, ainda que em regras próprias, o homem sentenciou.

– Senhor, eu não quero esse livro.

Estou 46 minutos e os segundos contínuos atrasado. A calçada está repleta de indivíduos que, fora o cimento irregular e os sacos esquecidos de lixo, não compartilham mais nada entre si. Um homem supostamente leva o filho pequeno ao colégio em passos lentos, uma mulher não menos devagar fala sobre o amor ao telefone, uma idosa cheira os legumes de ontem numa quintada improvisada enquanto um conjunto heterogêneo de seres humanos se apinha ao vidro da banca de jornais em busca de falsas manchetes que lhes faça algum sentido. Ninguém observa a proporção dos seus espaços físicos sobre o peatonal, nem as movimentações paralelas sobre as suas costas. Só percebem a si mesmos no mundo, ainda que todos estejam num dos quadrantes mais tumultuados da Avenida São João.

Um dos milhões de pensamentos que me governa propõe que a sociedade poderia estabelecer como regra informal um corredor livre nas calçadas e avenidas destinado aos atrasados. O suposto bom pai, a amante feliz, a avó preocupada e os mal informados sequer notam, mas suas existências momentâneas interferem diretamente na minha: aumentam a ansiedade, a transpiração e, claro, o atraso. As vidas, porém, não se tocam, não se olham, quase não se sabem, de forma que a pressa – outrora inimiga da perfeição – se torna a paixão intensa do egoísmo.

Chego ao trabalho uma hora e vinte e dois minutos depois, sem lembrar minimamente das feições dos meus companheiros de cidade. São só obstáculos que dificultaram o caminho e que serão esquecidos para todo o sempre em menos tempo que o próprio atraso. Eis o egoísmo de todos os dias. Eis, enfim, o maior deles: o meu.

Na verdade, esse entrelaçamento de vidas num entrelaçamento de tempos não poderia dar certo.

Dinheiro encontrado num piso

Era uma antiga nota de dois reais dobrada em duas partes tortas cuja metade de baixo estava silenciosamente presa na sandália gasta pelo tempo calçada por uma mulher perdida na leitura de um livro qualquer de auto-ajuda. Conclui antes de atravessar os bancos vazios do último ônibus do dia, atingir a catraca ainda sem fila, oferecer um boa noite clandestino à cobradora e, enfim, diminuir a distância entre eu, o dinheiro e sua suposta dona.

Nessas horas, os conflitos são inevitáveis: por mais que os soldados da bondade se unam às forças das boas práticas e dos deveres cívicos, eles só existem porque precisam combater o exército do egoísmo, pronto a fazer valer alguma preponderância própria sobre qualquer coisa – naquele caso, a nota de dois reais. Luta desnecessária, penso eu, porque sempre acontece de se tomar dimensão da essência humana e, como árbitro de si mesmo, acabar por se dar a briga por encerrada com a vitória pacífica dos combatentes do bem público.

Resolvi, então, avisá-la do dinheiro momentaneamente perdido, mas o tempo para que a guerra paralela dos atos termine foi suficiente para fazer a mulher dar o sinal ao motorista, fechar o livro, observar que estava atrasada para algum compromisso desconhecido e deixar eu, a nota, o cobrador e os outros seres humanos sozinhos.

Assim, começou outra batalha, dessa vez entre eu e a nota de dois reais, desamparada no chão já sujo da noite, separada abruptamente da bolsa de uma das suas proprietárias do dia, ainda que a intensidade da vida útil de uma cédula seja imensamente distinta dos outros objetos inanimados. O dinheiro é, talvez, a criação humana mais desejada e, ao mesmo tempo, mais sem dono que existe. Sem a mulher, não havia mais ninguém tão próximo da nota quanto eu, que não a possuía até três minutos atrás, quando ela ainda pertencia a uma leitora voraz de auto-ajuda.

Observei os transeuntes. Um homem lia um jornal de ontem. Uma menina ouvia algo num fone improvisado, perceptível porque suas feições denunciavam a irritação de estar ao lado de duas mulheres dialogando em voz alta. Num canto, uma moça mostrava as fotos de uma bebê para seu companheiro momentâneo de viagem. Ninguém percebia, mas havia uma nota de dois reais dobrada, suja e imóvel sobre o piso do ônibus.

O mundo paralelo dos bancos, dos pegadores, das janelas pichadas, da saída de ar aberta pela metade no teto, da cobradora suada pelo calor, permaneceu o mesmo nos vinte minutos entre a Estação Palmeiras-Barra Funda e o Bairro do Limão. Olhei uma última vez para o chão, já cansado das batalhas internas – dessa vez entre esquecer e lembrar que a nota continuava no chão – e a recolhi num gesto abrupto, não sem antes encenar a ninguém uma falsa descoberta da cédula. A prova inevitável foi a falta de reação à cena, mas a apropriação indevida, a propriedade novamente transformada de pública em privada, estimulou uma vergonha que me incapacitou de continuar respirando o mesmo ar que os seus outros distraídos competidores. Avisei ao motorista que desceria no próximo ponto – dois antes da minha parada diária.

Caminhei um quarteirão com os dois reais na mão, suada também pela aflição do ato ilícito, até trombar com um morador de rua rindo de si mesmo num colchão instalado embaixo de uma lotérica.

– Toma esses dois reais e vai tomar um café.

O amor nos tempos de Michel Temer

Ana Carolina

Os estranhos meses em que seres humanos foram catalogados por cores quentes ou brandas, espécies de raiva ou de egoísmo, noites de quinta-feira ou tardes de domingo, largos populares ou avenidas turísticas, pães matutinos ou petiscos de boteco e, então, separados por muros descartáveis, gritos enfurecidos de qualquer ordem e interpretações abstratas de democracia, que culminariam no quarto golpe de Estado da história, foram os mesmos em que Ana e Vinícius colaboraram intensamente com a produção nacional de amor.

O país era, então, um imenso território à deriva disputado por dois oceanos brigados que, assim como as pessoas, mantinham-se em constante conflito entre o quente e o frio, e cuja existência desconexa e juvenil seus filhos insistiam em entubar entre todos os sentimentos humanos possíveis e jogá-lo num único rio chamado ninguém sabe ao certo porque de Brasil. Seus cantores e poetas tentavam em vão revelar-lhes os segredos, seus dias eram tão indecisos quanto as paixões momentâneas e seus governantes eram expressão de umas das milhões de espécies de mentira. Da janela, só se podia ver o tempo brincando consigo mesmo entre os esquizofrênicos edifícios, enquanto, avulsos ao movimento da vida, os humanos  continuavam a criar novas divisões.

Havia, porém, um país à parte, encravado no caos, cujo espaço era delimitado pelas suas roupas abandonadas entre os batentes, pelos curiosos livros de Ana apinhados nos limites das prateleiras e pelo retratos das épocas imemoriais em que as ambivalências eram apenas hipóteses científicas cuja aplicações empíricas estavam suspensas. Não tinha margens observáveis nem horizontes disponíveis e era governado particularmente durante as noites em que nada mais parecia existir no universo. Se nas ruas um líquido denso e fétido que descobririam tempos depois se tratar da expressão física do ódio vazava pelos tortuosos meios-fios, no país avulso outro tipo de umidade, branco como as nuvens do meio-dia e perfumado como os produtos de lavanda era fabrilmente produzido com a esperança de repovoar o mundo.

Seu funcionamento também tendia a não respeitar as regras universais, de forma que o clima era temperado pelos quatro tipos de sorrisos de Ana, os ânimos eram controlados pelas formas inatas com que era capaz de fazer existir seus olhos e o tempo era regido despretensiosamente pela direção que seus cabelos decidiam seguir. Sob seu poder, um país minúsculo amontado entre vários outros iguais e cercado por milhares de ainda outros pode conseguir a notável capacidade de produzir amor em excedentes.

Assim, enquanto novas cores eram catalogadas em boas ou ruins, outros muros eram levantados e derrubados imediatamente, bandeiras e gritos faziam com que ninguém se ouvisse e tudo não passasse de uma confusa confluência de sons, o sentimento oposto era silenciosamente armazenado para que, quando os tempos de raiva e egoísmo passassem, o amor tivesse também uma segunda oportunidade sobre esta Terra.

Todos querem rir com o presidente

Após dezenas de pessoas presas e exiladas, um suicídio, revelações contraditórias e personagens nos limites do bem e do mal, Evo Morales parece ter vencido o conflito amoroso com Gabriela Zapata

O presidente boliviano Evo Morales, em fevereiro de 2015

O presidente boliviano Evo Morales, em fevereiro de 2015

“A vida é uma só e pode ser platinadíssima”, anunciava em maio a cabeleireira Marisa Viera, dona de um salão de beleza voltado à classe média alta de Santa Cruz de la Sierra em uma de suas postagens mais populares no Facebook. Acompanhava o texto improvisado uma montagem com fotografias de meninas com mechas longas e lisas pintadas de prata que parecia querer dar uma felicidade natural às mulheres que decidem mudar a cor do cabelo. Nos comentários, garotas brancas encenavam enlouquecer com a novidade. Diante do sucesso repentino, Viera ressurgiu dias depois na própria postagem comentando que estava procurando uma delas disposta a lhe servir de modelo para divulgar o método Silver Hair. A moça deveria ter o cabelo comprido, sem resquícios de colorações antigas e, como avaliação inicial, precisava mandar uma foto do rosto, ganhando então a pintura prateada e uma sessão de fotos.

Ainda que não estivesse manifesto, o objetivo de Viera parecia claro aos olhos mais observadores: encontrar, entre as meninas ricas da cidade, uma que fosse a sua própria Gabriela Zapata Montaño.

“De quatro a cinco mulheres me pedem o cabelo igual ao dela diariamente”, conta. “Porém, sempre digo que o Silver Hair é aconselhado para mulheres de pele clara”, completa, esquecendo-se momentaneamente que o seu país tem a maior proporção de índios em sua população (62%) e que a própria Gabriela Zapata faz parte dessa estatística. O jornal El Deber, de Santa Cruz, disse recentemente que pintar o cabelo de prata na cidade é uma tendência.

A responsável pelo lucro de Marisa Viera e pela moda de inverno em uma das capitais mais importantes da Bolívia, porém, é uma das detentas da penitenciária de Miraflores, em La Paz, desde fevereiro deste ano, acusada inicialmente de tráfico de influências e, nos últimos meses, de mentir em um processo judicial. Apesar de ter se acostumado a aparecer nas colunas sociais de Santa Cruz com vestidos caros e rodeada de políticos e artistas, foi também em fevereiro que sua fama alcançou proporção internacional, quando ela revelou que havia tido um filho com o presidente Evo Morales, inaugurando o maior escândalo político no governo boliviano desde a posse do mandatário, em 2006.

Imersa entre fotos sensuais e milhares de dedos apontando-lhe os erros, Gabriela Zapata conseguiu devolver à prata – metal que séculos atrás foi a riqueza e a miséria da Bolívia no processo de conquista espanhola – toda a sua ambiguidade histórica.

A “novela latino-americana”, como foi chamada na imprensa estrangeira, ou “Game of Thrones boliviano”, assim batizado pelo ex-presidente do país, Jorge Quiroga, começou a ser contada no final de abril. À época, Evo e Gabriela viviam em um conflito pessoal escancarado ao público sobre a existência ou não de um suposto filho do casal. Ele dizia que o menino – batizado de Ernesto Fidel Morales – havia morrido dez meses depois de nascer, em 2007. Ela, por sua vez, afirmava que o garoto estava vivo, morava com a tia em La Paz e estava sentimentalmente abalado pela negação paternal. Membros da Defensoria da Adolescência de La Paz tinham entrevistado uma criança apontada como o filho de Evo e Zapata e a rede estadunidense CNN afirmava ter conseguido uma entrevista com ela. Ainda assim, persistiam dúvidas sobre se era, de fato, Ernesto Fidel.

Dias depois da publicação da reportagem, Evo – em uma operação midiática que cercou as ruas centrais de La Paz – resolveu cumprir uma decisão judicial e coletar suas amostras sanguíneas para colaborar nas investigações. Zapata, que deveria comparecer ao local no mesmo horário que o presidente, só chegou meia hora depois, evitando o indesejado encontro. Antes, divulgou uma carta escrita à mão em que dizia que o secretário de governo do presidente, Juan Ramón Quintana, tinha “muita coisa a revelar ao povo boliviano” e que Evo, como “pai da pátria”, não estava dando o exemplo que deveria. Quintana respondeu posteriormente chamando o caso de “novelinha” e acusando Zapata de “mentirosa” em meio a gargalhadas nas quais ninguém quis acreditar. A desconfiança pública sobre o secretário aumentaria entre maio e junho, quando a imprensa boliviana divulgou mensagens entre Quintana e Zapata no aplicativo de celular WhatsApp antes da prisão dela em que os dois mergulhavam em carícias amorosas como “meu rei” e “meu amor”. Ela ainda acusaria o político de lhe sugerir uma fuga ao Brasil com a ajuda do ex-senador Roger Pinto, exilado político em Brasília desde 2012.

No começo de maio, quando a situação parecia novamente controlada, o país caiu em sucessivos escândalos, reviravoltas e trocas de máscaras entre os personagens da história, que da mesma forma se multiplicaram. Os veículos de imprensa cindiram-se entre oposicionistas e os governistas e, em um período de 50 dias, dezenas de acusações foram tomadas como verdades e desmentidas ou confirmadas em seguida, outra dezena de pessoas foi detida, três se exilaram em países vizinhos e uma se matou em uma mansão na metrópole do país.

A Bolívia se jogou de corpo inteiro em uma crise política impulsionada pela imagem arranhada do seu presidente – outrora celebridade internacional – e por uma caçada judicial semelhante à Operação Lava Jato brasileira, mas com motivações ainda mais pessoais e impulsionadas por uma paixão que parece ter sido arrebatadora enquanto existiu: amigos, familiares e advogados de Gabriela foram presos ou detidos em poucos dias. Do governo, ninguém nem foi chamado sequer para depor.

O primeiro foi o popular cantor e apresentador Alejandro Delius, detido quando saía da emissora onde trabalha em Santa Cruz e levado pelos agentes a La Paz para prestar depoimento. Acusado de complô com Zapata por ter seu nome ligado a transações econômicas com ela, Delius foi liberado depois de dizer que o dinheiro – cerca de US$ 9 mil – foi um pagamento a um serviço de “limpeza espiritual”. Ela diria dias depois que, ainda que ninguém soubesse, Delius sempre foi um “bruxo”.

Ainda em maio, parlamentares da Unidad Demócrata (UD), partido de oposição ao Movimiento al Socialismo (MAS), de Evo, divulgaram um documento que parecia provar que Evo pagou o aluguel de um apartamento em uma região de classe média alta de La Paz de 2006 a 2015. O imóvel, segundo eles, era compartilhado com Zapata. No centro dos escândalos, ela colaborou ainda mais com as acusações oposicionistas em um programa de televisão no dia 17: disse que havia engravidado duas vezes do presidente, abortando o primeiro filho, em 2005, e que havia se relacionado com ele até 2010. Evo diz desde o começo da história que esteve apaixonado por ela até 2007, quando os dois terminaram. Depois disso, segundo ele, os dois nunca mais se viram.

Quatro dias depois, a justiça determinou a detenção de alguns empresários do setor da construção civil em Santa Cruz de la Sierra e em Oruro acusados de atuar junto com Zapata nos contatos com empresas estatais. A tia dela, Pílar Guzmán, responsável por anunciar ao país que o suposto filho de Evo com sua sobrinha estava vivo, também foi detida acusada de mentir sobre a existência dele. Da mesma forma foi ajuizada a ex-diretora de uma das secretarias de governo, Cristina Choque, por colaborar com Zapata nas chantagens por contratos públicos.

Porém, a prisão que gerou apreensão até das Nações Unidas foi a do advogado de Zapata, Eduardo León, personagem central da história desde o seu início, quando aparecia na televisão acusando Evo Morales de mentir sobre o caso, demonstrando a segurança típica dos homens da lei que carregam provas consistentes e, em todo momento, ratificando que Ernesto Fidel Morales vivia em algum lugar da Bolívia. No mesmo dia 17, quando saía de sua casa em La Paz, agentes da polícia algemaram-no e o levaram à promotoria da cidade, onde foi acusado de mentir sobre o garoto. Segundo a juíza Mariana Montero – figura controversa da história em seu âmbito judicial, assim como o brasileiro Sérgio Moro – faltavam provas sobre Ernesto Fidel. Detido provisoriamente no cárcere San Pedro, em La Paz, o advogado foi julgado no primeiro dia de junho e declarado culpado por quatro crimes: falsidade material, falsidade ideológica, uso de instrumentos falsificados e conduta antieconômica.

Dois dias depois da audiência, León foi internado com quadro de insuficiência renal. Sua defesa pediu prisão domiciliar à juíza Montero, que negou. Então, o Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU expressou “preocupação” com a maneira como o caso estava sendo conduzido, enquanto fotos dele em estado crítico de saúde estavam sendo divulgadas pela família à imprensa. Durante esse período, Evo evitou dar declarações à imprensa e se refugiou em visitas a países amigos, como Cuba e Venezuela. Ao jornal El Deber, no dia 5 de junho, León colocou o país novamente abaixo ao dizer que tinha dúvidas sobre a existência do filho de Evo e Zapata e que a sua ex-cliente mentiu durante 80% do tempo em que trabalharam juntos.

“Eu nunca vi o garoto. Ela nunca me mostrou uma foto, nunca me apresentou pessoalmente a ele. Ainda assim ela me fez apresentar um menor [à sociedade], seus documentos e fotografias. Para mim, diante dessa situação, ela precisará esclarecer tudo”, afirmou.

Com medo, os outros dois advogados de Zapata fugiram para o Peru. Na Argentina, outro exilado, o jornalista Carlos Valverde, o homem que divulgou a paixão do casal e a suposta existência do filho, tuitou num dia qualquer que havia se equivocado e que agora dispunha de provas para dizer com autoridade que, na verdade, Ernesto Fidel Morales nunca existiu. A imprensa internacional novamente se debruçou desconfiada sobre o caso. Evo, porém, saiu vitorioso: com dois personagens importantes na trama admitindo que o filho era uma criação literária, viu cair sobre si novamente a força de uma imensa parcela da população que se mutilava por ter que desconfiar do seu líder. Ainda no final de maio, o mesmo El Deber publicou artigo em que dizia que o presidente estava novamente no controle do país, como fora desde seu primeiro dia no Palácio Quemado.

Ernesto Fidel Morales – ou a ideia de um ser humano inventado – foi eliminado da realidade e posto na fantasia, de fato, no dia 10 de junho, quando Zapata enfim admitiu que o menino estava morto e que a estratégia de dizer que ele ainda vivia fora do advogado Eduardo León. Após cinco meses em que todas as conversas de bares, jantares familiares, diálogos de elevador, artigos jornalísticos, publicidades clandestinas e documentos institucionais rodearam a existência ou não de um filho de Evo e Zapata, tudo foi sepultado em minutos.

“Ela é uma psicopata”, respondeu León quando soube da afirmação de sua ex-cliente.

À Justiça, Zapata ainda disse que pagou US$ 5 mil para uma família de La Paz “emprestar” seu filho aos advogados, que o usariam para apresentá-lo à imprensa internacional e aos órgãos judiciais bolivianos. Cinco pessoas foram presas pelo envolvimento na suposta negociação, entre os pais do garoto “alugado” e intermediários. Uma delas, Ximena Fortún, dona de uma casa alugada por Zapata em La Paz, soube na prisão que a irmã, Ana Maria Fortún, também investigada no caso, disparou um tiro na cabeça com um revólver israelense nove milímetros no quarto de casa, deixando os seus bens para uma instituição de caridade em um bilhete curto. Era a primeira morte real em uma história onde a ideia de morrer esteve sempre viva.

Suplantada a história, Evo cresceu: voltou a aparecer semanalmente na imprensa, criou um eixo do mal midiático em que estariam os jornais El Deber, Pagina Siete, o canal de televisão Erbol e a agência de notícias Fides, além da rede estadunidense CNN, disse que o caso Zapata havia sido inventado nos Estados Unidos e que acreditava “sobrar liberdade” aos veículos de comunicação na Bolívia. O discurso foi tomado pela burocracia estatal, de forma que o debate político atual no país circula sobre uma maneira de regulá-los. Evo acusa a mídia de ser “direitista” e “imperialista” e ganhou o reforço da mídia estatal venezuelana, principal parceiro ideológico do governo boliviano. O El Deber, maior jornal de oposição, respondeu as acusações em um artigo amplamente divulgado em que afirma que a história de Evo, Zapata e Ernesto Fidel foi, antes de tudo, uma maneira inteligente de esconder a corrupção institucionalizada no Estado.

Em julho, com Zapata, Léon, Guzmán, Fortún, Choque e outras dezenas de pessoas ligadas à ex-namorada presas em La Paz, com o gabinete presidencial intacto, com 61,3% de aprovação popular – taxa que permite a pessoas comuns construírem, por iniciativa própria bustos públicos com as imagens dos pais do presidente, e como vencedor moral do conflito com um de seus vários casos amorosos conhecidos, Evo se permitiu ser enfim, o homem indiferente às formalidades que sempre foi. Durante a inauguração de uma nova linha de teleféricos em El Alto, próximo à capital, se deparou com um campo de futebol batizado de “Zapata” em um texto escrito por seu cerimonial. Confrontado momentaneamente com o nome polêmico no documento que lia em rede nacional, deu um dos seus sorrisos sinceros, mexeu a cabeça com ansiedade e disparou: “Soa mal esse nome. Vou pedir ao prefeito [Luís] Revilla [de La Paz] para mudá-lo”. Ao seu redor, todos pareciam rir novamente com o presidente.

Se não fosse o Uruguai, o Mercosul já teria acabado

Para senadora uruguaia Lucía Topolansky, crises nos principais países do bloco afetam a ideia de integrar a região – plano que já foi declarado como iminente há alguns anos

Montevidéu, julho de 2016

Lucía Topolansky em sua biblioteca, na chácara onde vive com o ex-presidente uruguaio, "Pepe" Mujica, em Montevidéu

Lucía Topolansky em sua biblioteca, na chácara onde vive com o ex-presidente                         uruguaio, “Pepe” Mujica, em Montevidéu

O silêncio matutino nas plantações de hortaliças no bairro de Rincón del Cerro, nos arredores de Montevidéu, capital do Uruguai, parece ser uma extensão clandestina do estado de espírito de dois famosos moradores da região. A pequena chácara próxima à estrada O’Higgins, nome de um dos libertadores da América, onde vivem a senadora Lucía Topolansky, 71, e o também senador e ex-presidente Jose “Pepe” Mujica, 81, resiste como um bunker solitário da ideia bolivariana de integrar todos os América Latina em um único bloco econômico e político.

Mujica e Lucía, no entanto, compartilham a mesma solidão que o lugar em que escolheram viver: mergulhado em uma crise política, o Mercosul – bloco econômico e político mais forte da região e o mais próximo que se chegou de uma “integração” – corre o risco de acabar, deixando todos os seus membros novamente sozinhos.

No final deste mês, o Uruguai precisa transferir a presidência temporária do Mercosul ao governo da Venezuela, mantendo o acordo de rotação semestral de poder do bloco. A crise política e econômica venezuelana, no entanto, fez com que Brasil e Paraguai pedissem ao presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, que continuasse no comando até agosto. Em julho, o chanceler brasileiro, José Serra, chegou a viajar a Montevidéu para interpelar Vázquez pessoalmente. O presidente da Argentina, Maurício Macri, já reiterou diversas vezes seu repúdio à forma como a Venezuela está sendo governada, e o Paraguai parece não ter superado a entrada do país caribenho no bloco durante o período em que foi suspenso, em 2012. Assim, apenas o Uruguai – que está exercendo a presidência neste momento – parece disposto a seguir a regra e entregar a presidência a Maduro, ato que pode gerar um desconforto ainda maior entre os governos.

A crise, ainda que não pareça abalar os ideais de Topolansky, preocupa até mesmo quem já chegou a entendê-la como iminente. “Temos que cuidar dele como se fosse ouro, porque é uma ferramenta de construção de futuro”, diz ela enquanto aquece a pequena lareira de sua biblioteca, minutos depois de se despedir de Pepe, naquele dia envolvido em reuniões políticas. Lá fora, o silêncio dos cachorros e gatos soltos pela chácara parecem completar o clima frio da capital uruguaia e da relação entre os países sul-americanos naquela manhã.

O governo uruguaio reconheceu há alguns dias que a América Latina enfrenta dificuldades no projeto de integração. A senhora e o seu marido foram, nos últimos anos, as vozes políticas mais ativas nesse sentido. Por que a nossa integração está em segundo plano hoje?
Somos daqueles que acreditam que, em algum momento, a América vai conseguir construir a Pátria Grande, porque existem mais coisas que nos unindo do que separando. A nossa história gerou vários países com fronteiras arbitrárias produtos da conquista ibérica e dos processos de independência, mas ainda estamos no mesmo barco. É por isso que apoiamos o Mercosul, a Unasul, a Celac, ou seja, organismos que tendem a integrar de alguma forma. O Mercosul nasceu como um acordo comercial, mas acreditamos que evoluiu para uma espécie de integração também. Sendo assim, não está em segundo plano. Acreditamos que pode se tornar uma região de livre-trânsito de pessoas e de mercadorias, porque o mundo hoje se movimenta em blocos. Atualmente, por uma série de razões políticas que são circunstanciais, não de perspectiva, a situação no bloco está apenas mais complexa.

Por causa da transferência da presidência temporária ao governo venezuelano?
Sim. Muitas nações estão se inserindo nesse problema ferindo a soberania e a autodeterminação do povo venezuelano, assim como a Organização dos Estados Americanos (OEA). Eles tiveram uma eleição há sete meses que foi reconhecida por todos os organismos nacionais e internacionais. O que acontece é que o novo parlamento está em uma direção diferente em relação ao Executivo, o que faz com que qualquer país trave. É o que está acontecendo também na Argentina e no Brasil. Essas são algumas das debilidades da democracia que esperamos um dia solucionar.

A senhora está em que lado da discussão?
Não é novidade o que está acontecendo na Venezuela. Os presidentes, em todas as nossas constituições, têm poder de veto, e não há nada que mostre que os poderes não estão sendo independentes lá. Gostando ou não do estilo de condução do país, esse é um problema que não tem nada a ver com a transferência da presidência temporária ao governo venezuelano. O Uruguai está certo ao querer realizar esse ato. O Paraguai não tem muito crédito ao querer impedi-lo, porque esteve recentemente envolvido em uma crise política. Foi inclusive punido pelo Mercosul no caso do golpe contra Fernando Lugo. Não têm respaldo para falar. A chanceler argentina [Susana Malcorra] tem uma posição parecida com a nossa: o que mais importa é a ferramenta Mercosul e não os detalhes de cada país. Ninguém sabe como o Brasil agirá, porque esse é um governo interino. A situação do Mercosul agora é delicada, mas é um bloco importante e que deve continuar existindo.

As situações políticas dos países não estão afastando o projeto de integração?
Não me atrevo a dizer isso, porque o novo governo argentino não está contra a integração, por exemplo. Tem outra postura, mas a integração segue sendo uma pauta. Não se pode falar do caso brasileiro, porque ninguém sabe quem vai governar em um futuro próximo. Então os dois principais países do Mercosul não renunciaram ao projeto de integração. A Venezuela e o Uruguai estão sempre dispostos e o Paraguai nunca foi um país central nessa questão. Olhando o panorama do mundo, é possível perceber que o descalabro que pode acontecer na União Europeia com o Brexit impactou as comunidades econômicas. O principal cliente do Reino Unido é a União Europeia. Agora vão precisar negociar com 27 países com distintos funcionamentos para tentar manter o fluxo comercial. Isso impacta o resto: a União Europeia pode perder um fluxo exportador. Essa decisão prejudicou os dois. Foi uma campanha muito estranha, tanto que há movimentos grandes para voltar atrás na decisão. As pessoas mais velhas, que foram as responsáveis pela saída britânica, se recordam de uma Inglaterra que não é mais nem nunca será a “rainha dos mares” imperialista novamente. Os jovens, por contrário, votaram pela continuidade. Olhando essa situação, temos que cuidar do Mercosul como se fosse ouro, porque é uma ferramenta de construção de futuro.

O Brexit foi, sobretudo, uma resposta britânica para o tema da imigração. Na América do Sul, porém, esse não é um problema político. Quais são as nossas distâncias mais difíceis?
São distâncias culturais. Os maiores países da América do Sul não precisam da integração. Não há uma grande mobilização no Brasil no sentido de integrar o continente, assim como não vejo nenhum movimento em Buenos Aires. Os países menores, como o Uruguai, entendem melhor a necessidade da integração. Além disso, nossos mandatários estão preocupados com a sorte de seus governos, com as próximas eleições, com seus contextos particulares, o que fecha ainda mais as fronteiras. É possível que, com o tempo, os países percebam essa importância. A Europa conseguiu desenvolver uma infraestrutura ferroviária, rodoviária e portuária porque soube juntar o capital em Bruxelas e repartir entre todos. Todas as estradas espanholas, por exemplo, foram feitas com dinheiro da União Europeia. Assim como as ferrovias britânicas foram financiadas com recursos europeus. Isso aconteceu porque, ao se juntarem, potencializaram essa distribuição. Poderia acontecer o mesmo na América Latina sem o problema da imigração.

Por que essa questão é, de certa forma, irrelevante para nós?
Porque a América é um continente formado por imigrantes. A Argentina, o Brasil e o Uruguai foram construídos por pessoas de diferentes lugares, ainda que alguns países andinos mantenham seus povos originários. A União Europeia, nesse sentido, é cínica, porque os imigrantes que querem entrar no continente europeu agora são produtos das guerras ferozes que foram desatadas no Oriente Médio. Quem é responsável pela destruição da Líbia, do Egito, da Síria, do Iraque? Preciso responder? Não estou defendendo aqui o Muammar Gaddafi ou o Sadam Hussein, mas vamos lembrar que a Líbia tinha o PIB per capita mais alto do Oriente Médio e havia organizado de maneira razoável a questão das mulheres – que é complicada nos países islâmicos -, de forma que elas podiam estudar e ter independência econômica. Não era uma democracia no mesmo modelo que o nosso, mas agora são quatro grupos que disputam incessantemente o poder e que faz com que a população marche do país, além do roubo incessante do petróleo, que está entre os melhores do mundo. Isso é melhor do que o país de Gaddafi? Essa pergunta precisa ser feita.

O Mercosul ainda pode ser a chave de uma integração maior, nos termos que a senhora e seu marido se puseram a propagar?
Claro. Aspiramos que essa integração seja mais sólida, ainda que se pareça com a União Europeia. Nessa integração, poderíamos negociar como um bloco. Estamos negociando há quinze anos um acordo comercial com a União Europeia e sabemos que temos posições diferentes em diversos aspectos, como o agrícola. O Mercosul tem a maior região de cultivo de gado do mundo, além da produção de trigo, sementes, plantas, etc. Obviamente, os custos de produção são competitivos em relação aos custos europeus.

Mas é possível fazer o mesmo aqui?
Seria desejável. Não sei se exatamente igual, porque são países com histórias distintas, mas seria desejável uma livre circulação de bens e de pessoas e a possibilidade, por exemplo, de um professor uruguaio trabalhar no Brasil ou de um engenheiro boliviano trabalhar na Colômbia. Haveria um intercâmbio científico, social, econômico, etc. Foi o que deu status ao bloco europeus. Eles se tornaram mais fortes e, em tempos de crise em alguns países, como Portugal, Espanha e Itália, estes foram respaldados pelas fortalezas da Alemanha e da França.

Na visão da senhora, o que nos unem?
Acredito que devemos lutar para que, em algum momento, esse continente se integre. É possível fazer isso porque há uma série de coisas que nos unem: o idioma, a Igreja Católica em um aspecto cultural e os processos de independência – que se deram no mesmo momento em que o capitalismo estava começando. A história nos mostra que nossas colonizações e nossas emancipações se deram com vistas aos outros continentes, nunca olhando para nós mesmos. Ficamos muito tempo de costas uns aos outros, o que permitiu um domínio maior das grandes potências mundiais sobre o nosso continente. Essa situação mudou quando tomamos dimensão das potencialidades que temos. A América Latina é o continente mais desigual do mundo, mas também o que tem as maiores reservas naturais do planeta, como petróleo, água doce e a Amazônia, que é a maior reserva biológica existente. Os países produtores de comida são estratégicos no mercado mundial, e não é à toa que a China investe tanto aqui: eles precisam alimentar um bilhão de bocas. A Índia é a mesma coisa. Perceba que a China e a América do Sul se complementam enquanto países. Estamos convencidos que esse é o nosso destino.

E o que impede a integração completa – digo, de todos os países?
Há muitos interesses. Agora mesmo estamos discutindo um tratado com a Aliança do Pacífico, onde estão implicados pelo menos mais quatro países latino-americanos: o Chile, o Peru, a Colômbia e o México. A Colômbia vai se transformar em breve no terceiro maior país no aspecto econômico da região, porque tem um potencial exportador notável que ainda não foi explorado por causa da guerra. Além disso, está de frente para os dois oceanos. Veja: nessa negociação entre Mercosul e Aliança do Pacífico temos fortes competidores, como Austrália e Nova Zelândia, que produzem as mesmas coisas que os países do Pacífico. Assim, vale a pergunta: é inteligente se integrar com os competidores ou é melhor se juntar aos complementares? Esse acordo excluiria a China, o primeiro mercado de muitos países da América Latina, incluindo o próprio Chile, que vende cobre aos chineses. É inteligente excluir os chineses? Essa pergunta nos leva a respostas que geram muita dúvidas sobre esse acordo. Entendemos que o sudeste asiático – China, Índia, Indonésia, Malásia – é formado por milhões de pessoas que comem todos os dias ou que deveriam comer todos os dias. É uma região que precisa ser nossa sócia. Acredito que os países produtores de comida são chaves para o futuro do mundo e, por isso, a integração é fundamental.

O Uruguai se sente sozinho nesse conflito entre todos os outros membros do Mercosul e especialmente nas crises no Brasil e na Argentina?
O Uruguai está desempenhando um papel muito difícil. Estamos sendo a ponte entre os países e impedindo que o Mercosul acabe. Curiosamente, é o menor país da região que está exercendo esse papel. Quem vai suspeitar de intenções imperialistas do Uruguai? Seria um absurdo pensar isso. Sendo assim, reunimos condições para intermediar os conflitos entre Argentina, Brasil e Venezuela. Nosso chanceler [Rodolfo Nin Novoa] está trabalhando arduamente com todos esses países para encontrar uma saída. O Uruguai acredita que ela é lógica: após seis meses de presidência do bloco, é hora de passá-la à Venezuela e ajudá-la a desempenhá-la, e não atacá-la e colocar obstáculos que prejudiquem a existência do bloco. Mas sucintamente: o Uruguai está sozinho nesse momento.

Se não fosse o trabalho diplomático uruguaio, o Mercosul já teria acabado então?
Seria mais difícil para um país maior desempenhar esse papel de conciliação. Por isso que acho que, no meio de toda essa crise, acredito que é um momento oportuno para discutir essas questões.

Havia a possibilidade de o bloco acionar a cláusula democrática em relação ao Brasil no caso do afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Esse processo não se deu ainda. Por quê?
O processo no Brasil foi diferente do que houve no Paraguai, em 2012, quando a cláusula foi acionada pela última vez. Naquele caso, o presidente Fernando Lugo foi deposto em 24 horas e sem nenhuma chance de defesa. Estou convencida de que o que ocasionou o golpe foi uma ação orquestrada. No caso do Brasil aconteceu outra coisa: não deixa de ser uma forma de golpe de Estado, mas há uma parte mínima de juízo em que uma parte das acusações até já afirmaram que as acusações contra Dilma são incorretas. É um processo muito mais legal do que o que houve no Paraguai. Assim, não há razão para acionar a cláusula. O mesmo acontece com a Venezuela: gostando ou não do estilo de governo, não se pode violar a soberania nacional de um país. Portanto, não há porque acionar o acordo agora.

Lucía e o quadro dado de presente por Evo Morales, presidente da Bolívia - Foto: @anaolivcamargo

Lucía e o quadro dado de presente por Evo Morales, presidente da Bolívia –                                          Foto: Ana Carolina Camargo

O governo uruguaio anunciou que não se relacionaria com o Executivo brasileiro depois do afastamento de Dilma, mas Tabaré Vázquez já se encontrou com o chanceler José Serra em Montevidéu. Isso é um sinal de mudança de rota?
Não. É que não temos meios para não fazê-lo. Somos um pequeno país entre dois gigantes. Não temos remédios que não receber o chanceler José Serra, em forma interina ou não. A gente não se propôs a cortar relações com Brasil nem retirar nossa representação diplomática em Brasília, mas apenas a acompanhar com atenção o que está acontecendo no juízo de Dilma Rousseff. Pensamos que o governo dela é legítimo, mas temos que aceitar o processo, porque ele está previsto na constituição brasileira. Da mesma forma, não é da nossa alçada interferir nisso. Se o chanceler viaja a Montevidéu para falar do Mercosul e nós estamos exercendo a presidência temporária do bloco, seria um equívoco não recebê-lo. Mas não mudamos nossa posição: seguimos preocupados com a situação brasileira. Frente ao mundo, qual foi a imagem que o Brasil passou naquela sessão da Câmara dos Deputados onde se votou o juízo da presidenta? Foram os argumentos mais estranhos que eu já vi em todos os meus 70 anos de vida.

A senhora é amiga de Dilma Rousseff. Falou com ela após o afastamento?
A última vez que fui ao Brasil o impeachment ainda estava em discussão. Depois, não falei mais. No entanto, algumas pessoas do meu partido [Frente Amplio] estão indo e vindo de Brasília, muitos dos quais são deputados do parlamento do Mercosul que se reuniram com ela. Estivemos com o presidente Lula também. Contratamos um advogado – desses que te roubam as calças – para nos deixar informados de todos os detalhes sobre o processo brasileiro.

Temem uma mudança nos rumos econômicos?
A impressão que me dá é que se destruiu em pouco tempo uma enormidade de coisas que foram levantadas nos últimos anos. Alguns gestos foram muito duros, como quando extinguiram o Ministério de Cultura. Quando se começa a destruir algo que foi construído com o trabalho de muito tempo, e ainda mais por obra de um governo provisório, é muito triste. Há ainda a impressão que o judiciário brasileiro trabalha sem independência alguma, o que nos preocupa muito. Pensei esses dias que uma das hipóteses é que o processo de impeachment não seja suficiente para tirar a presidenta Dilma do cargo. Neste caso, ela teria mais um ano e meio de governo para construir de novo tudo o que foi destruído por este governo provisório.

O Brasil está sendo destruído?
Sim. Está havendo uma destruição do projeto brasileiro. Com determinados fundamentos, que não sei se são reais, percebe-se que o Brasil está marchando para trás. Ficamos alegres com a ação de retirar 40 milhões de pessoas da pobreza que o governo conseguiu realizar, de forma que só esse feito, esquecendo-se de todo o resto, é uma proeza. É a mesma coisa com a China: você pode apontar o sistema de partido único ou outras várias críticas possíveis, mas quando um governo dá de comer ao seu povo já se produz uma diferença. Quando se retira uma quantidade de pessoas da pobreza, há um tempo de consolidação dessa saída. É preciso ir consolidando essas pessoas que já não são mais miseráveis. Se no momento em que esse fenômeno está acontecendo surge um retrocesso como esse, o risco maior é que essas pessoas voltem à pobreza. No século 21, isso não é mais admissível.

O Centro de Investigações Econômicas do Uruguai divulgou recentemente um informe dizendo que a Argentina não influenciou em nada a economia uruguaia em 2016. É uma evidência da crise argentina ou as relações com Macri estão mais difíceis do que eram com Cristina?
Em alguns pontos, o governo de Macri está ajudando o Uruguai, ainda que em outros a gente não tenha empatia. Havia algumas decisões do governo anterior sobre a questão dos portos, com restrições que não convinham ao nosso governo. O que acontece é que convém mais aos comerciantes do sul da Argentina desembarcar mercadorias nos portos uruguaios do que nos argentinos por uma série de razões, como a estrutura e a profundidade de nossas instalações, mas isso foi restringido. Brigamos também para que o Paraná seja um rio internacional, e em direção oposta o governo anterior tomou a decisão de que toda navegação por este rio teria que ser feita com embarcações argentinas. Isso prejudica até o comércio que descia da Bolívia, porque a velha ideia de uma hidrovia naquela região era unir Cáceres [no Mato Grosso, Brasil] com Nueva Palmira [em Colônia, no Uruguai], de modo que o transporte marítimo saísse por ali e não tivesse que ir até Santos. Com essa restrição perdemos essa importante via marítima que fortaleceria a exportação de grãos e minérios bolivianos. Na prática, se o rio Paraná fosse uma pista internacional todos seriam beneficiados. Nessas questões, o governo de Macri é mais flexível.

E o que há de negativo?
O empobrecimento veloz que o povo argentino está enfrentando. Em poucos meses de governo, os impostos dispararam, começaram a surgir mais problemas de moradores de rua nas cidades argentinas e já temos um milhão de pessoas inseridas na pobreza novamente. Isso nos preocupa. Nós também dependemos do turismo argentino: nos meses de verão a grande parte dos turistas que chegam ao nosso país é de argentinos, então o poder de compra deles influencia a nossa economia. Isso diminuiu muito, porque o governo Macri priorizou pagar os fondos buitres e ainda aumentou as tarifas da agricultura local, que é uma das mais fortes do mundo. Com isso não podemos estar de acordo. Mas como já dito: esse governo é legítimo, os argentinos assim o quiseram, e não podemos nos meter nisso.

A senhora e Pepe deram demonstrações públicas de descontentamento com a vitória de Macri no ano passado.
Acredito que a Argentina deu o poder a Macri porque o peronismo se dividiu. As eleições foram vencidas em Córdoba, onde o governador é um peronista de orientação distinta. O peronismo é um fenômeno social dificílimo de entender: tem grupos que vão da direita à esquerda. Além disso, envolve um sentimento muito forte. Existem muitos argentinos que podem aprovar um governo peronista apenas pela figura de Eva Perón, mais do que a de Juan Domingo. Essa mulher marcou a pátria socialmente como se fosse uma mãe. Era uma mulher de 33 anos que veio das classes inferiores e que, portanto, ascendeu em uma sociedade extremamente hierarquizada, tanto que a alta sociedade não gostava muito dela. A imensa maioria da população a ama até hoje. Se um cidadão entra em uma organização social ou um sindicato em qualquer rincão da Argentina, a primeira coisa que vê é um retrato dela. Isso precisa ser entendido como um sentimento que transcende apenas o aspecto partidário. O Partido Judicialista [partido peronista argentino] reuniu personagens como Carlos Menem e os montoneros [guerrilha urbana organizada durante o regime militar argentino]. Eu tive que ler muito para saber alguma coisa sobre esse fenômeno. Quando o peronismo está dividido, sempre surgem líderes radicais. Quando se juntam, não há maioria mais sólida do que esta.

Falando em mulheres, a Calle2 mostrou que os gabinetes da América Latina possuem poucas mulheres. Há algum tempo havia quatro presidentas e agora só permanecemos com Michele Bachelet, no Chile. O que houve?
Fomos para trás. Temos que seguir lutando. É a única receita. A presença das mulheres na política é uma batalha cultural complicada, mas não apenas na América Latina. Vemos dificuldades até da Hillary Clinton nos Estados Unidos. A verdade é que, olhando para o mundo, as mulheres ainda estão em minoria. Essa luta precisa ser permanente até que haja uma equidade de direitos. O caso uruguaio é curioso: ao mesmo tempo em que nunca tivemos uma mulher eleita presidenta neste país, somos a vanguarda desse projeto de igualdade de gênero na política: Batlle y Ordoñez, no começo do século XX, conseguiu mudar os aspectos judiciais da questão, que são mais fáceis que os culturais. Com ele, fomos o primeiro país da América a permitir voto feminino, a posse de propriedades e a possibilidade do divórcio por vontade exclusiva das mulheres. Nesse momento, aliás, o judiciário uruguaio tem mais mulheres do que homens. Estamos falando, portanto, que um dos três poderes do país está aparelhado majoritariamente por mulheres.

No Brasil chegaram a dizer que o impeachment de Dilma também se explica pelo fato dela ser mulher. Concorda?
Claro. É um fator contrário a ela. O Brasil é um país complexo que dificulta a vida de qualquer governante. Não me arrisco a colocar-me no lugar de um dirigente desse porte. Por outro lado, é uma posição maravilhosa, porque se trata de governar um país onde houve verdadeiramente uma miscigenação. As raças realmente se integraram e não se discriminam, o que é uma virtude enorme da sociedade brasileira. A chegada do PT ao poder gerou uma espécie de terremoto, porque ninguém podia imaginar que um metalúrgico nascido no sertão nordestino se tornaria presidente. Para alguns setores, esse feito gerou resignação. Não sou partidária da reeleição perpétua e gosto do exemplo brasileiro, de poder continuar no poder por mais um período. É outra discussão política, mas não deixa de nos rodear. Digo isso porque achei muito inteligente a atitude do PT em buscar uma figura que não complementasse Lula, mas que fosse completamente diferente. O pior são as cópias ruins, como acontece na Venezuela.

Está falando do Maduro?
Sim. Maduro quer copiar o estilo de Chávez, que era um personagem fora de série. É muito difícil quando isso acontece não por causalidade, mas por planejamento. Foi muito inteligente, portanto, que fosse uma mulher extremamente inteligente como é Dilma a escolhida para suceder Lula. Escutei que sua presidência foi reprovada pelo próprio partido pelo seu distanciamento com algumas pautas do programa original, o que também não deixa de estar certo. Os partidos ganham os governos e os governos precisam governar, mas os partidos não precisam imitar o governo. Os partidos têm a função de velar pelo programa que foi prometido para que se chegasse ao governo e ser a verdadeira ponte entre a sociedade e o governo. Na sociedade democrática, o partido é o que leva e o que trás. No Brasil, isso se fraturou nos últimos tempos, gerando essa crise atual.

Alguns críticos do PT dizem que Lula errou ao escolher Dilma. Mais ainda: que ela só foi escolhida sucessora porque, na cabeça dele, ela seria facilmente manipulada.
Não posso acreditar nisso. Cada pessoa tem uma personalidade para tomar decisões. Isso seria subestimar a figura da presidenta e do próprio Lula. O que houve foi uma transição inteligente, porque quando há um governante com uma personalidade muito forte, como Lula, é difícil substituí-lo. Não é apenas o caso do Brasil, mas de vários países latino-americanos. É preciso encontrar uma forma de perpetuar a ideia, porque as pessoas guiam as ideias, mas as ideias são mais importantes. Ou as causas. A orientação e o programa de um partido que busca alguns objetivos são cruciais, e eu tenho percebido, por meio de alguns militantes do PT, que houve certo desvio em relação ao programa do partido para o segundo mandato. Capaz que esse seja um dos problemas, ainda que não seja algo que fira a ética de Dilma. É apenas um erro político. O impeachment de Dilma não é a mesma coisa que houve com Fernando Collor de Mello.

Uma crônica no final de junho publicada no jornal El Observador mostra uma recepção enorme ao seu marido em uma conferência em Berlim. Recentemente, um homem árabe foi preso em Montevidéu dizendo-se filho de vocês. A fama mundial do governo de Pepe atrapalha a vida cotidiana?
A verdade é que estamos em um bairro onde todos se conhecem. São todos pequenos agricultores que se sentiram privilegiados em ter aqui um presidente da República. As pessoas estavam muito felizes no dia da posse dele, fizeram uma festa aqui no quintal. Depois, como a nossa casa sempre esteve com as portas abertas, seguimos rodeados de gente. Com a presidência isso se potencializou. Chegou num nível que beira a loucura. Eu me sinto um pouco afetada na intimidade, mas não há o que fazer. O caso do árabe foi apenas mais um entre diversos outros que nos deparamos de vez em quando. Recebi gente aqui dos lugares mais estranhos do mundo. Mas isso tem uma explicação: chama atenção como Pepe exerceu sua presidência e agora como vive após o poder. Em um momento em que a política está desprestigiada, uma das coisas mais graves que podem acontecer a uma democracia, as pessoas se apegam a outras figuras que parecem ser mais sólidas. É o nosso caso.

Mas não te irrita?
Não é questão de irritar ou não. Todos precisam ter um tempo para suas intimidades, para a família, mas não se pode ser muito egoísta. Às vezes nos vemos pressionados, mas o que vamos fazer?

Mundos

Para Ana Carolina

Seria necessário
que cada pessoa deste mundo
amasse outra pessoa deste mundo
de forma que o mundo fosse
basicamente
um mundo de casais.
Então reunidos,
cada pessoa teria uma única complexidade
para compartilhar com outra pessoa.
A Terra
diminuiria sua população em 50%
e seria uma versão menor
do complexo mundo
que há entre eu e você.

Para Ana Carolina

No seu raro terceiro sorriso
abrigo-me do frio do sul.
Na sua complexa máquina de movimentos
apaziguo-me da normalidade.
Nos seus indecisos olhos matutinos
percebo-me matéria.
Nas suas selecionadas expressões
mergulho-me ansioso.
Na sua distância momentânea
encontro-me faminto.
Nas suas planejadas revelações
alimento-me alvoroçado.
Nas suas palavras não ditas
escondo-me das que existem.
Nas suas felicidades cotidianas
entrego-me subalterno.
Nos seus constantes mistérios
perco-me em tristes poemas instantâneos.
Na sua imensa existência
sinto-me constantemente perdido.

Montevidéu, julho de 2016

Eu, ela e o mar

Chegamos ao barranco que acreditávamos dar acesso ao encerramento do imenso litoral quando apenas as gaivotas ainda famintas, a última neblina do dia sobre as primeiras árvores da montanha e a solidão dos fins dos domingos ainda permaneciam impregnadas na areia da praia. A caminhada havia sido curta, mas não menos dolorida do que a anterior que nos colocou perante os juízos do mar. Distante do cumprimento das regras dos jogos amorosos, via-se em meus movimentos do rosto, alternando-se entre um representação cinematográfica que só servia a mim mesmo seguidas por extensas observações do formato que a boca dela sugeria como expressão do seu espírito, e na compulsiva mão no bolso, os sinais latentes da minha dificuldade em existir. Ela, ao contrário, gostava de ver minhas expressões forçadas do alto de seu púlpito imaginário, de onde podia compreender todos os sentimentos recalcados, os pensamentos difusos e as milhões de espécies de ansiedade. A única piedade que sua tranquilidade lhe obrigava a ter era repetir o gesto de colocar as mãos dentro dos buracos da calça. Quando o vento interrompeu a lenta passada pela areia, nos detivemos próximos à marola. A dúvida entre manter o silêncio e encerrá-lo era a mesma que subitamente surgiu-me sobre se o trabalho das ondas emitia algum som aos ouvidos humanos. Antes que me colocasse ao trabalho de solucioná-lo, evitando também que as ideias funcionassem apenas para lidar com a nossa mudez momentânea, ela vociferou em voz marcada e precisa.

– Acabou.

A palavra atravessou as camadas da existência deixando rastros visíveis: os poros pareceram desabrochar, permitindo que a brisa inofensiva da tarde se tornasse incômoda; a boca esbranquiçou-se com a parada instantânea e súbita do serviço de bombeamento do sangue; e, enfim, o cérebro, ressoando-a no sendo de realidade, enviou lágrimas clandestinas aos olhos que foram armazenadas para quando o desespero expressasse a impossibilidade de fazê-la mudar de opinião.

Ainda com a mão no bolso, ela permanecia observando o mar, com os cabelos voando em pequenas imitações gravitacionais das ondas, os lábios sensivelmente contraídos, ereta como se portam as pessoas que amam antes a si mesmas do que as outras. A dúvida sobre o silêncio marítimo reapareceu, talvez como expressão manifesta da confusão interna que aquela informação me causara, mas a venci tracionando o diálogo.

– Acabou?

– Acabou – repetiu ela, abandonando a rigidez da coluna e a imobilidade do rosto por um movimento quase impercebível de afirmação interna.

Iniciei, então, o processo que fora minha função nos exatos três anos, sete meses e vinte e dois dias anteriores: impedir um fim que, de uma maneira antropológica, me dava alívio e medo. A estratégia primeva sempre fora a das recordações que acreditava serem as mais emotivas e que serviam, nestes momentos, para desestabilizar qualquer estrutura sólida de um possível término, como as cartas que lhe escrevia nos dias de conquista, os planos de longo prazo rabiscados com detalhes nos melhores dias de nosso amor – e que julguei que jamais seriam abandonados -, e, enfim, a viagem às terras finais da Argentina dois anos antes, quando compreendi que a vida estava, de fato, satisfeita com seus desígnios ao nos fazer encontrar em um dia qualquer em São Paulo. No entanto, a frouxidão que o uso constante delas nos momentos de crise resultou impediu de atingi-la, tirando-lhe apenas algumas lágrimas de quem relembra de um dos vários passados felizes existentes. Antes que eu continuasse a citá-los, forçando seus sentimentos tão pequeninos acoplados àquele corpo de mesmo tamanho, ela interrompeu.

– Acabou, amor. Acabou.

Ainda como conflito psíquico e também como uma tentativa de fugir do triângulo entre eu, ela e o mar, entrei em novas questões históricas, como as diferentes palavras que servem para anunciar o fim de algo nos milhares de dialetos e idiomas existentes e, no caso português, a força que possuía o verbo acabar. Depois, quando lembrei que voltou a usar a ideia humana de amor para se referir a mim, como fazia quando estava impaciente com alguma crise de ciúme ou discordância de opinião, construí uma rápida teoria funcionalista sobre o propósito do amor à humanidade – das extremidades da paixão entre pessoas aos ódios das nações. Chamar-me, enfim, de amor, dava-lhe um carinho incoerente com a sua decisão de encerrar o nosso complexo relacionamento naquele instante.

Demo-nos, então, nosso primeiro olhar sincero, eu para seu olho esquerdo, tradicionalmente mais vivo do que o outro, ela pairando entre os meus dois numa movimentação minúscula e aflitiva dos seus escondidos globos oculares procurando alguma reação. Antes que ela pudesse contrair os lábios com os dentes, sem mostrá-los, e balançar a cabeça afirmativamente, como quem concorda consigo mesmo em pensamento, já sabia que iria fazê-los. Da mesma forma, esperei ansiosamente pela palavra que sempre vinha a seguir. Era, de fato, um ritual dos seus charmosos trejeitos.

– Você não percebe que acabou?

Mantive o silêncio como minha única defesa possível. Fora assim desde que a conheci, numa noite sem clima percebível paulistana em que dividimos por minutos o banco de um ônibus vazio rumo à zona sul. Percebi sua existência na fila desnecessária do ponto, no Terminal Bandeira, em que, além de nós dois, respiravam o motorista, as mudas esquecidas pela prefeitura no meio-fio e um casal de ratos avulsos à nossa presença. Dei-lhe lugar à minha frente na escada e, como agradecimento, escolheu o lugar ao meu lado entre todos os disponíveis. Falamos sobre o hinduísmo, a situação econômica mundial e sobre os melhores discos do King Cole. Despediu-se friamente, quando percebeu que sua parada havia passado, mas deixou-me com seu telefone na capa de um livro. No encontro seguinte, não lhe disse nenhuma palavra: sentei na mesa do bar que havíamos combinado, tirei sua mão de um de seus braços – sinal de sua ansiedade – e a beijei com certo exagero. Era a última boca que acreditava tocar.

O passado é uma religião, concluí. Venera-se tudo o que já existiu como se tivesse sido a melhor das experiências terrenas, da mesma forma que os pagãos bíblicos cultuavam deuses antigos. Nosso encontro naquela primeira noite possivelmente foi muito mais comum e rotineiro na engenharia dos casais novos do que gostaríamos de acreditar, inclusive superestimado quando nos colocávamos a contar às nossas diferentes plateias, quando, sem acordos precedentes, sempre incluíamos um fato novo que não sabíamos se tinha acontecido de fato. O mais absurdo deles dava conta que, na data de nosso descobrimento, ela havia me visto na Praça Dom José Gaspar minutos antes e, tomada por um ímpeto encantador, seguiu-me até o terminal, aonde ainda mais incrivelmente o ônibus que eu pegaria passava perto de seu destino daquele dia. Gostava de ouvir-lhe contando-os, sobretudo, porque era uma ótima ficcionista de bares e restaurantes.

A praia seguia seu comportamento regular, observando sem interesse o fim estranho do profundo contato que tivemos antes dali. Não deveria ser o primeiro: é em frente às ondas e sobre a areia que a imensa maioria dos amores do mundo começam e terminam, de forma que, se precisássemos trocar todas as palavras que designam o amor, as que se referem ao mar seriam as melhores substitutas. Quando nosso olhar duro, repleto de ruídos vazando pelo silêncio, foi também interrompido pelo orgulho duplo, coloquei meu braço sobre suas costas, virei o corpo em direção ao barranco verde e me pus a andar sinalizando o regresso. Ela entendeu a simbologia improvisada e seguiu-me, observando – ainda do seu púlpito – a minha espera por uma palavra sua que mudasse todo aquele panorama. Os morros de grama, nítidos antes da montanha e da neblina invernal, aproximavam não apenas a volta ao mundo real, como ao nosso fim concreto, físico, já que depois de vencê-los eu provavelmente nunca mais a reencontraria. Assim, cada passo na areia negra e batida pelos tratores estatais mostrava-me um momento histórico da minha vida, que doía ainda mais por eu ter, ali, a noção de estar vivendo-o. Aquela breve caminhada era inesquecível antes mesmo de terminar. Mais do que isso: moldaria para sempre a maneira como eu veria os demais seres humanos sucessores do seu amor findo.

Admiti, então, antes que fosse tarde, o desejo de que os pequenos morros que encerravam a praia nunca chegassem, de forma que a vida se tornasse – até o seu fim biológico – apenas aquela caminhada pela areia preta movimentada pela brisa exagerada da praia abraçado polidamente com ela. Seria um existência triste, mas bonita.

Longe de poder dar um novo funcionamento à vida, nos detivemos novamente já na avenida beira-mar, agora assistidos pelos coqueiros transtornados e pelos cães alimentados pela morte prematura dos peixes, onde o orgulho não me impediu de fazer uma última admissão, desta vez forte o suficiente para sair de mim e chegar a ela.

– Eu te amo, Regina.

Ela sorriu, me beijou com os lábios frios de quem não abriga sentimentos e saiu em marcha rápida pela primeira viela existente. Quando a última mecha de cabelo se escondeu sobre a parede da esquina, um poema assaltou-me com a ideia vaga de que as suas costas, outrora uma de suas partes que mais me atraía, foi a que se despediu inconscientemente de mim.

Para Ana Carolina

No mundo ideal
existiriam você,
o Caetano Veloso,
os cachorros antes abandonados,
os domingos invernais,
o cozinheiro noturno do De La Paix,
os pilotos de qualquer companhia aérea caribenha,
os engenheiros coloniais da cidade de Havana
E os funcionários das livrarias, dos parques e da iluminação pública.

%d blogueiros gostam disto: