ARIMANDÍA

Apesar de Bolsonaro, brasileiros ainda repudiam regime militar, diz cientista político

Para Rafael Salatini, professor da UNESP, falas recentes do presidente brasileiro – como a de que o nazismo foi um regime de esquerda – demonstram a relevância que os conceitos de “direita” e “esquerda” ainda têm para explicar o mundo

Jair Bolsonaro durante evento militar em Brasília

Jair Bolsonaro durante evento militar em Brasília – Crédito: Agência Brasil

Na metade de março, quando a Universidade de São Paulo convidou o professor e cientista político Rafael Salatini, da Universidade Estadual Paulista (UNESP) para dar uma palestra sobre ditaduras e totalitarismos, o presidente Jair Bolsonaro ainda não havia divulgado um vídeo produzido pelo Palácio do Planalto defendendo o regime militar brasileiro (1964-1985) – como o fez no dia 31 – nem viajado a Israel, onde, depois de visitar o Yad Vashem, museu dedicado às vítimas do Holocausto, em Jerusalém, afirmaria que o nazismo foi um regime de esquerda.

Vinculado à chamada Escola de Turim, cuja referência é o cientista político italiano Norberto Bobbio (1909-2004), Salatini se debruçou em suas pesquisas passadas sobre conceitos que definiram as explicações sobre divisões políticas e sociais surgidas no século XX, como “ditadura” e “totalitarismo” e regimes históricos como “nazismo”, “fascismo” e “comunismo”. Ele acredita que o grupo que chegou ao poder nas eleições do ano passado conseguiu colocar novamente em debate uma interpretação sobre o governo militar que antes parecia consensual por meio dos discursos das esquerdas. Na contramão da maioria das análises e das críticas, ele não considera que isso seja nocivo à democracia.

“É natural que grupos políticos distintos divirjam sobre valoração ou interpretação de fatos e ideias políticas. Essa variação é interessante, porque expressa pluralidade democrática”, diz. No entanto, não deixa de afirmar que, conceitualmente, o período brasileiro sob a tutela do Exército no país foi uma autocracia – e que a maior parte da população segue concordando com isso, mesmo com os esforços de Bolsonaro em modificar a percepção da história.

A discussão merece também a leitura do artigo Why far-right populists are at war with history, escrito pelo historiador estadunidense Federico Finchelstein e publicado nesta semana no jornal Washington Post. A seguir, trechos da entrevista que Salatini concedeu a mim na semana passada.

Esquerda e direita ainda são conceitos que ajudam a entender a realidade?

Esquerda e direita são termos axiológicos de classificação da política que nasceram no contexto da Revolução Francesa e ganharam importância porque descrevem posicionamentos polares. A direita está ligada aos princípios desigualitários, porque considera a desigualdade social uma realidade natural das sociedades, enquanto a esquerda se vincula aos princípios de igualdade, acreditando justamente o contrário. Hoje é possível reconhecer sete posições superpostas no espectro: três à direita (extrema-direita, direita e centro-direita), três à esquerda (extrema-esquerda, esquerda e centro-esquerda) e uma ao centro. As grandes correntes ideológicas estão dentro dele: tomando o liberalismo como doutrina de centro, o conservadorismo à direita e o socialismo à esquerda, é facilmente reconhecível que o nazismo e o fascismo foram de extrema-direita, que a democracia cristã está na centro-direita, que a social-democracia é de centro-esquerda e que o comunismo e o anarquismo se localizam na extrema-esquerda. É importante reconhecer a validade ideológica desses termos, embora a política não deva ser avaliada exclusivamente a partir da ideologia. Há outros aspectos, como os práticos, os corporativos, os históricos, os biográficos, os programáticos, etc. Há fatos que devem ser avaliados, mas a ideologia é uma das principais dimensões – talvez seja a mais maleável, e por isso fomenta discussões mais calorosas.

Como você vê a dificuldade de conceituação ideológica dos gilets jaunes na França?

Nos anos 1960 alguns partidos políticos nasceram dos movimentos pautados pelos direitos de mulheres, de negros, do meio-ambiente, etc. Esses partidos ou grupos políticos, frutos da sociedade civil, tentaram não se classificar no espectro tradicional de esquerda e direita, mas não tiveram tanta força para desenquadrar esse debate polar. Isso mostra a importância dessas categorias. Não acompanho a política francesa para opinar com precisão, mas alguns movimentos ainda tentam se manter supra-partidários e não conseguem. No Brasil, o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Movimento Passe Livre (MPL) são exemplos: se declaravam acima das questões partidárias, mas no ano eleitoral foram para espectros partidários e ideológicos. Assim, eles mostram que não são tão contrários assim à essas posições.

Mas no caso da França há dúvidas até mesmo sobre a base social dos gilets jaunes.

A base social trabalhadora é muito grande desde o final do século XIX, principalmente nos países industrializados, de maneira que praticamente todos os partidos e todos os grupos ideológicos tentaram se aproximar dela com intuitos eleitorais. Isso vai do nazismo – o partido nazista concorria nas eleições da República de Weimar – até o comunismo. Todos eles se sentem verdadeiros representantes dessa classe, por um motivo ou por outro. O resultado é a mistura dessa base em todos os partidos, grupos e movimentos. Isso acontece em todas as democracias e tem muito menos a ver com as filiações ideológicas – porque as classes mais baixas não tendem a se filiar a ideologias – do que com o pragmatismo dos programas partidários. Em outras palavras, essa base social se filia a quem consegue levar mais recursos a ela e quem consegue satisfazer as suas demandas, que são bem reprimidas.

Como pode ser conceituada a releitura do regime militar – de um período sombrio para a salvação do país – que o governo do presidente Jair Bolsonaro incentiva e faz?

Durante a maior parte do debate público brasileiro sobre o regime militar houve uma predominância das forças culturais e intelectuais da esquerda, da centro-esquerda e do centro – formada em sua maioria por ex-militantes, ex-presos políticos, ex-exilados e um conjunto de artistas, intelectuais e parlamentares. Hoje o que se vê é um outro grupo social, formado por outros intelectuais, parlamentares e artistas que se reconhece no espectro da direita. Ele tem uma outra interpretação, também matizada. A novidade é que se trata de uma nova voz que não tinha espaço e que o ganhou com as redes sociais. Na direita e na esquerda há uma pluralidade de interpretações sobre o regime militar, porque ele ainda é recente na história brasileira, o que faz com que o debate tenha muita carga emocional. Porém, é natural que grupos políticos distintos divirjam sobre valoração ou interpretação de fatos e ideias políticas. Essa variação é até interessante, porque expressa pluralidade democrática.

A academia ainda mantém consenso de que o regime militar foi normativamente ruim?

A visão é axiologicamente negativa. Dentro da academia, independentemente das posições, há um valor universal em torno da democracia. E é muito difícil não classificar o regime militar como autocrático. É possível até divergir se ele foi muito forte, médio ou fraco, mas é difícil não dizer que foi uma autocracia.

Considerando os conceitos e os consensos acadêmicos, como se definiria o período militar brasileiro?

O período militar é a segunda autocracia reconhecível dentro do período republicano brasileiro. Entre 1937 e 1945 houve o Estado Novo, sob tutela do então presidente Getúlio Vargas, e depois veio a autocracia da junta militar. Comparando os dois regimes, dá para reconhecer facilmente a maior liberalidade do regime militar: ele trabalhou com sistema partidário reduzido, com um Congresso aberto, com eleições em diversos níveis e, inclusive, votações indiretas para a presidência da República, embora o sufrágio tenha sido limitado e o parlamento tenha sofrido cassações, além da existência de perseguições e de presos políticos – todos traços autocráticos. Ainda assim, foi mais liberal do que o Estado Novo. Quando se compara esse período com o imediatamente anterior, entre 1945 e 1964, ou com o posterior, depois de 1986, dizemos que foi uma autocracia. Se a comparação for com outros governos autocráticos da mesma época na América Latina, também é preciso reconhecer que eles foram mais fortes: a Argentina, por exemplo, teve mais mortes, mais perseguição e mais censura do que o Brasil. A análise do regime militar, como a análise de qualquer regime político, depende da perspectiva, com qual outro regime ou forma política está sendo feita a comparação.

Chegar ao poder é suficiente para estabelecer uma nova percepção sobre um fato histórico, como o regime militar, ou a vitória eleitoral é somente a expressão dessa nova interpretação social?

Muitos dos participantes do governo atual têm essa interpretação há muito tempo, começando pelo próprio presidente da República. Como parlamentar, ele sempre teve essa visão positiva do regime militar. Outros grupos ideológicos também tinham essa percepção, mas não possuíam muito espaço para divulgá-la – e foram encontrá-lo na Internet. O fato do PSL ter vencido as eleições do ano passado dá muito mais visibilidade à posição da direita, assim como a posição do presidente e de outros representantes do Estado ajudam. Mas ela ainda não é a opinião majoritária sobre o regime militar no Brasil. Ao contrário, a visão comum é a da esquerda e da centro-esquerda – que teve seu momento de visibilidade nos três governos anteriores. Nenhum grupo conseguiu se sobrepor ao outro. O que aconteceu foi a mudança da capacidade de visibilidade, ao menos do ponto de vista ideológico.

As esquerdas usaram o termo “fascista” para atacar Bolsonaro ainda na campanha militar, enquanto a oposição ao PT dizia que uma nova vitória do partido significaria uma ditadura. Em ambos os casos, o medo parecia ser de regimes autoritários. Havia conteúdo para um temor real?

Fascismo é um termo de valor histórico relacionado com o Partido Fascista e ao regime fascista italiano da primeira metade do século XX. Para além daquela experiência histórica, o termo não serve para mais nada. No debate ideológico (ou retórico), há mais passionalidade das palavras, especialmente em momentos de concorrência, como são os eleitorais, onde os discursos se elevam a um grau muito intenso. Todas as candidaturas vitoriosas na Nova República foram legítimas, do Fernando Collor de Mello ao Jair Bolsonaro, porque respeitaram as regras democráticas e a Constituição de 1988. Portanto, não existe autocracia na Nova República. As oposições mais retóricas aos governos que se sucederam tenderam a desqualificá-los – sejam de esquerda ou de direita. O uso do termo “fascismo” é emocional, um mero xingamento usado especialmente pela esquerda, mas também eventualmente pela direita, em relação ao atual governo. É preciso separar fatos da retórica, porque ela varia muito, enquanto eles têm mais materialidade. Fazendo esse exercício, se percebe facilmente que não houve ditadura nos governos do PT como, nesses primeiros meses do mandato Bolsonaro, não há autoritarismo.

A oposição percebeu características autoritárias nas declarações de Jair Bolsonaro durante a campanha e mesmo em seus atos de agora. Elas têm semelhanças, de fato, com governos autoritários?

A biografia do Jair Bolsonaro mostra que as falas dele variaram bastante em relação às situações em que ele estava. Na sua vida parlamentar, ele tinha um objetivo de expressar vozes mais conservadoras da sociedade – eventualmente com frases mais preconceituosas mesmo. Ele sempre pertenceu ao chamado “baixo clero”, ou seja, um grupo sem muita importância no Legislativo que tende a gritar mais para chamar a atenção. O período eleitoral também é uma disputa retórica de ambos os lados, com ataques, xingamentos, discursos emocionados. Mas quando as eleições acabam, todos os candidatos baixam o tom. Tirando aquela coisa falastrona da sua própria personalidade como político, você vê que as falas dele [agora] são menos preconceituosas. Se ele se colocava contra minorias homossexuais no parlamento, na presidência ele passa a dizer que é a favor delas, por exemplo. Então, a cada momento da biografia política há uma contemporização com as necessidades do mandato. Sair do “baixo clero” para a presidência exigiu que o Bolsonaro fosse aprendendo a se comportar retoricamente de forma diferente, se adaptando a uma nova gramática, e eu diria até que isso não é um percurso completo. O presidente ainda tem traços marcantes da vida parlamentar, que foi a maior parte da formação política dele. É possível notar a dificuldade dele em se adaptar a um cargo de uma dimensão tão grande.

Para além da realpolitik, há um grupo de pesquisadores, como a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que defende a existência de um fenômeno chamado bolsonarismo – que vai além da vitória eleitoral, porque ele conseguiu convencer a maior parte do eleitorado com esse discurso incisivo. Há nele algum aspecto autoritário?

Em primeiro lugar, a cultura política brasileira e mesmo a latino-americana é personalista. Havia um mito em torno da personalidade do Fernando Collor, do Fernando Henrique Cardoso, assim como o “lulismo” é chamado assim por causa do movimento em torno do presidente Lula, que, aliás, ajudou a eleger a sua sucessora. Hoje existe uma personalização forte da figura do Jair Bolsonaro – esse chamado bolsonarismo. Talvez o personalismo de agora seja novo, mas o fenômeno não é uma novidade histórica. Em segundo lugar, a identificação do eleitorado com o candidato Bolsonaro não foi apenas em função da sua personalidade. Uma hipótese muito forte é que ele ganhou porque, em sua base eleitoral, houve muitos votos de protesto contra políticos em geral e contra as propostas ligadas aos governos anteriores, porque as eleições aconteceram depois de um desgaste pelos quatro mandatos do PT. Uma segunda hipótese é que outra parte desse eleitorado é tipicamente de centro, que tende a votar nas candidaturas viáveis, isto é, tende a se concentrar nos candidatos que estão à frente nas pesquisas eleitorais. E há, claro, um eleitorado fiel ao Bolsonaro que não se desliga da sua figura, mas nem mesmo todo ele se identifica com as frases preconceituosas. Talvez uma parte dele sim, mas a outra provavelmente releve essas afirmações em função de outras mais aproveitáveis dele como candidato – em defesa da nação, do patriotismo, do desenvolvimento, das propostas anticorrupção, etc.

Mas a sociedade brasileira tem traços autoritários?

Sim. Tem traços conservadores, mas não diria que eles são tão fortes quanto já foram no passado. Hoje é uma sociedade muito mais tolerante, que convive com uma constituição que é apelidada de “cidadã” justamente porque possui vários direitos civis e sociais. É uma população que vive dentro de um regime democrático desde o final dos anos 1980 e que praticamente não teve mais tentativas de golpe político, embora alguns grupos eventualmente façam propostas de “fora, candidato”, que são mais retóricas do que práticas. Não acredito que a sociedade brasileira caminhe para um grau maior de violência. O candidato, embora seja desastrado em suas falas, não passa para além delas. Não há nenhuma proposta que possa ser considerada contra grupos minoritários.

A última discussão foi sobre o nazismo: os alemães e os pesquisadores internacionais parecem estar em um consenso de que foi um regime de direita. Por quê?

O regime nazista foi de extrema-direita. Classificá-lo como de direita já é inadequado. Foi um regime de direita porque foi fortemente nacionalista, e o nacionalismo é um traço central desse grupo, ao contrário da esquerda (principalmente aquela de formação marxista), que defende um internacionalismo. O nazismo também não tinha interesse em tratar os cidadãos de forma igualitária – e isso chegou ao limite das políticas de concentração em campos e o consequente extermínio completo de certos cidadãos. Foi um governo que perseguiu homossexuais, ciganos, religiosos, comunistas, judeus, eslavos, entre outros. E também foi extremista porque se baseou na violência para existir: destituiu todos os outros partidos políticos, instituiu uma polícia política persecutória, prendeu sumariamente e concentrou e executou milhões de pessoas. O nazismo consumiu a democracia na Alemanha da sua época. Os grupos que tendem ao autocratismo são extremistas, e os extremismos são muito parecidos em seus métodos. É por isso que é fácil comparar o nazismo com o comunismo: eles usavam os mesmos meios. A União Soviética também prendeu e executou sumariamente muitas pessoas. No entanto, o conteúdo é diferente: a direita é nacionalista, a esquerda não. Isso depende da necessidade de estudo histórico sobre o nazismo, que também é outro termo que só cabe historicamente.

 

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O paradoxo de Paris

Como tocá-la? Como alcançá-la? Como chegar em sua totalidade? Como compreendê-la em sua mínima possibilidade? Como olhar do alto da parte esquerda da antiga muralha dos Jardin des Tuileries para a Concorde, para os pequenos bosques da Avenue des Champs-Élysées e para a torre, estritamente em consonância com os postes verdes, e não se exasperar com a pequena quantidade de tempo que há para que as coisas se façam entender? E como dar conta da história, se cada tijolo de Paris leva consigo uma ordem real, um plano urbano e arquitetônico belo e destruidor ao mesmo tempo, um poder que hoje resta apenas nos livros e nos souvenirs, ou ainda esconde as mãos de milhares de pessoas cujos nomes não estão escritos nos memorandos e nas colunas dos edifícios e palácios?

A totalidade se torna utópica em Paris, e é difícil pensar que não se pode contar todas as chaminés dos prédios, que não se é possível andar por todas — e eu digo todas — as ruas, as vielas, os becos, os bulevares, e que mesmo que fosse possível, ainda assim a cidade não seria tocada, porque sempre faltaria uma janela, um cozinheiro fumando na saída de emergência escondida, uma luz de abajur despercebida no terceiro andar de um prédio da Rue Blanche, um horizonte de torrinhas alinhadas obsessivamente com os telhados e com o limite dos olhos, uma esquina que viu a morte de algum mártir da França no século XVIII, um jardim cujo nome remete aos anciões moradores de 300 anos atrás, um monumento, uma pedra esculpida, uma sequência padronizada de esquinas que só se deixa ver de determinado ângulo ou um café ou um lugar onde Julio Cortazar (ou Horácio Oliveira) passou em 1959.

Paris é a expressão definitiva da limitação do ser humano: o fracasso em tentar entender a natureza quando sequer podemos compreender a cidade que nossas próprias mãos construíram.

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25 de janeiro

A ideia de “cidade” é uma construção estrangeira que, mesmo quando aplicada a um dos exemplos latino-americanos mais “acabados” – São Paulo –, não faz sentido. Suspeito que em nenhum lugar, nem mesmo na Europa, mas na América Latina pensar em “cidade” chega a ser o absurdo da continuidade de nossa eterna tentativa de sermos europeus além-mar.

“Cidade” pressupõe experiências urbanas vividas por todos seus habitantes, de deslocamentos a acessos, de possibilidades culturais às de consumo, de estruturas cotidianas às ocasionais, mas em sociedades desiguais como as nossas essas experiências só servem para vender a própria cidade para os que não a conhecem ou as mercadorias que por ela circulam.

A “cidade” latino-americana é, na verdade, um amontoado de cosmologias em um mesmo pedaço de terra que interagem entre si apenas para fazê-la funcionar, mas que ao mesmo tempo mantêm fronteiras e limites rígidos e perceptíveis uns aos outros. Dentro deles há dialetos, trejeitos, ideias, visões de mundo, trajetórias, hábitos, padrões eleitorais, códigos e experiências próprias inteligíveis. Na maioria dos casos, as pessoas dentro de cada fronteira são estranhas entre si.

Talvez exista alguma confusão entre elas nos pequenos espaços em que duas ou mais fronteiras e limites se misturam.

Mas eles ficam evidentes quando se dá alguma atenção às fotos da Cidade Tiradentes, bairro no extremo Leste de São Paulo, feitas pelo Edson Lopes Jr. Lá, é possível questionar mais do que a experiência urbana, mas a própria ideia de “urbanidade”.

Elas também são escancaradas quando os “membros” de um cosmos circulam por outro, como foi o caso da “gente diferenciada” em Higienópolis.

A “gente diferenciada” é a chave que o senso comum fornece para entender a farsa da ideia de “cidade”, porque acredita que, dentro de um mesmo território, debaixo de um mesmo nome, de uma mesma história dominante, com heróis e inimigos compartilhados, e de um mesmo espaço de fluxo da vida, existem pessoas cujas experiências são tão distintas que não podem sequer se cruzar e, mais do que isso, que a experiência diferente dentro da cidade é uma ameaça.

O feriado é não é nem a tragédia nem a farsa, mas a legitimação da tragédia e da farsa.

Último ônibus

O relógio no semáforo mostra os poucos minutos que faltam para as onze da noite. O ônibus, ao contrário dos dias comuns – quando oferece uma última oportunidade aos estudantes, seguranças, enfermeiras e vendedores ambulantes de chegarem em casa antes do início do dia seguinte – está quase vazio. Rompem sua solidão duas mulheres que, apesar de juntas, preferem o silêncio, um homem com o crachá da empresa pendurado na camisa já suja, um rapaz imerso em um filme no celular e um diálogo improvisado entre o cobrador e o motorista. Nada muda durante o trajeto ao longo da descida da Avenida Sumaré: as paradas estão vazias, os relógios públicos vão aumentando, em sincronia, a contagem do tempo, e o vento mais frio do dia insiste em entrar pelas poucas janelas abertas. O cobrador, que aparenta estar na fronteira da aposentadoria, faz algum esforço para argumentar porque Emerson Sheik é melhor do que Dudu, mas a conversa com o motorista logo abandona sua espontaneidade e volta a ser o que dela se esperava: uma espécie de comemoração à prisão de Lula. A palavra “safado” ecoa no salão do ônibus até sua abrupta parada para a entrada de um homem com a touca da blusa grosseiramente amarrada sobre o boné. A escuridão parcial dentro do veículo impede qualquer contato entre ele e os antigos passageiros. Suas pequenas solidões, porém, são interrompidas na parada seguinte, já quase na Barra Funda, quando o homem salta a catraca com um único impulso, puxa uma pistola do agasalho e pede calmamente que todos entreguem seus celulares e carteiras. As moças da frente, incrivelmente impassíveis, iniciam um ritual mecânico de desconectar os fones de ouvido dos quase perdidos aparelhos. O homem do crachá, ao contrário, parece ainda não ter entendido a situação – algo comum aos primeiros segundos de um assalto. Então, antes de continuar o plano, o rapaz olha para trás e, de costas para as vítimas – já rendidas com aquela ruptura do cotidiano, da solidão das onze da noite, da conversa do cobrador com o motorista e da precária segurança que ainda existe nos ônibus de São Paulo –, abaixa a arma até quase não poder segurá-la. A situação permanece indecifrável até o momento em que se percebe que o cobrador experimenta uma espécie de choro que não parece ser de medo. Ao contrário, há um olhar estranho que a violência das rodas do ônibus sobre os buracos da avenida só deixa ver em rápidas estabilidades intercaladas. Sua boca treme paralela ao resto do rosto. E antes que se perceba o avançar das onze horas no relógio da rua, uma última frase também ecoa nos nossos ouvidos:

“Não sabia que você trabalhava nessa linha, pai”.

O eterno presente

O “futuro” e o “passado” são umas dessas brilhantes invenções humanas.

Todos os dejà vus, as pequenas coincidências, as repetições históricas (como tragédias ou como farsas) e a vaga ideia que todos têm de que existe um “destino” são, talvez, as fissuras mais bonitas na nossa tentativa de adicionar no tempo essas duas dimensões mais funcionais do que reais: o “passado” e o “futuro”.

Esses simples acontecimentos que são experimentados a todo instante e são levados pelas pessoas com leveza e alegria são, na verdade, pequenas expressões desse paradoxo.

Todos sabemos que a Terra gira sobre seu próprio eixo e, ao mesmo tempo, ao redor do Sol. A ciência já concluiu também que esse primeiro movimento não é perfeito, porque a velocidade do giro de si mesma varia – embora a média seja de mil quilômetros por hora. A sucessão dos nossos dias, partindo dessa premissa, é apenas a repetição constante de um único mecanismo da natureza. Sempre há noites nas partes terrenas que chegam ao outro lado do Sol e sempre há dias quando elas se postam à sua frente.

Ou seja: todos os dias a Terra nos coloca de volta para os mesmos lugares: na luz ou na escuridão. O planeta passa invariavelmente pelas mesmas “esquinas” desde que existe – indo e voltando em um presente eterno.

O “futuro” e o “passado”, de qualquer forma, não deixam de ser são magníficas demonstrações da complexidade do ser humano. A organização do tempo promove aprendizados históricos, descobertas fundamentais, a constante existência de planos e projetos para qualquer coisa e a “institucionalização da esperança”.

Quem fragmentou o tempo em fatias, como escreveu Carlos Drummond de Andrade naquele poema compartilhado à exaustão a cada réveillon, foi realmente um gênio.

A superação do “amor”

Para Ana Carolina

Se há algum consenso entre aqueles que tentaram catalogar a junção complexa de atração biológica de um ser humano pelo outro com os sentimentos que lhe dão fôlego e beleza e as suas consequentes perturbações de espírito, chamando-a de “amor” para torná-la um objeto de estudo de termo fácil e consumível ao mesmo tempo, é que ela demonstra sua existência a partir do momento em que uma pessoa deseja ser parte integrante de outra (FREUD, 2010, STENDHAL, 2012, NERUDA, 2011, DRUMMOND, 2009, et al).

Seria uma suposição muito presunçosa para uma carta apaixonada, mas pode-se imaginar que o “amor” tenha sido descoberto enquanto sentimento muito depois que os seres humanos já o tinham experimentado enquanto necessidade natural e ainda bruta de ocupar um único corpo físico. Ele seria o seu misterioso revestimento. A biologia, neste caso, com sua fixação pelos instintos naturais de reprodução, e a antropologia, com suas teorias sobre as coerções sociais sobre as relações humanas, seriam apenas discursos cartesianos ocidentais para um fenômeno mais complexo e jamais explicado em sua totalidade.

Considerando essa ideia, seria permitido imaginar que a descoberta do “amor” esteve na dobradiça entre o homem selvagem e o homem civilizado, a passagem de uma existência em que os impulsos da natureza tinham circulação livre sobre os poucos exemplares humanos para outra, agora congregada nos espaços contíguos e opressores das comunidades, que permitiu o reconhecimento de um sentimento que juntava aquele instinto selvagem com o fôlego e a beleza necessários à vida civilizada.

O “amor”, nesse caso, só foi encontrado porque, junto à civilização, veio uma nova espécie de solidão, mais insuportável do que a que existia na natureza. Contra aquele isolamento em meio a uma multidão e agora dono de suas inclinações selvagens, o ser humano percebeu que ser parte do outro significava também amá-lo.

Ou, ao contrário, o “amor” é que ocuparia o lugar de discurso cartesiano ocidental, e todos nós seríamos apenas animais com alguma racionalidade que criaram uma retórica sentimental para facilitar a povoação do mundo. Mas essa é uma hipótese difícil de acreditar.

É principalmente Stendhal (2012) que oferece a contribuição mais completa para essas imaginações amorosas-científicas: para ele, falando do ponto de vista masculino, o que não deixa de ser uma falha, o “amor” é um fenômeno civilizado por excelência porque, enquanto na vida social o homem aumenta seus prazeres com as perfeições da mulher amada, na natureza ele só sente prazer nas suas atividades de sobrevivência, como a caça e a luta contra inimigos (STENDHAL, 2012, p. 35).

É da natureza, contudo, que flui a “cristalização”, uma operação em que o apaixonado se dedica a descobrir novas perfeições na pessoa amada. Ela se dá por meio do caminho que o sangue traça entre o corpo e o cérebro criando, em consequência, o prazer. Esse sentimento orgânico, no selvagem, se desenvolve no cotidiano da floresta. No civilizado, ao contrário, se desenvolve na ideia de que o objeto amado, uma outra pessoa (ou o “objeto” freudiano) é “dele” (STENDHAL, p. 39).

“Um viajante fala da frescura dos bosques de laranjeiras de Gênova, à beira-mar, durante os dias ardentes do verão. Você pensa no prazer de experimentar essa frescura com ela! […] Um homem apaixonado vê todas as perfeições naquela que ama.” (STENDHAL, 2012, p. 41, grifos meus)

A legitimidade de Stendhal, no entanto, não está na sua complexa catalogação do “amor” nem em sua teoria famosa, mas no fato de ter se dedicado a escrever um livro de mais de 300 páginas para dar conta da intensidade de sua paixão por uma mulher. Era só um apaixonado por excelência que queria ser parte integrante dela, não apenas no sentido biológico, mas também pertencer ao espírito, ao sentimento, à existência inteira da sua amada – a italiana Matilde Dembowski. Talvez tenha escrito a carta de amor mais extensa da história da humanidade.

Ele também faz parte do consenso de que o “amor” está no ser ou desejar ser parte do outro. Uma voz mais analítica, como Freud (2010), por exemplo, mostraria que há poucos estados psíquicos em que o ego não se mantém em linhas de demarcação claras e nítidas em relação ao exterior: na paixão. Diz ele que:

“No auge do sentimento de amor, a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer. Contra todas as provas de seus sentidos, um homem que se ache enamorado declara que ‘eu’ e ‘você’ são um só, e está preparado para se conduzir como se isso constituísse um fato” (FREUD, 2010, p. 45)

Não menos amoroso (ou científico), Carlos Drummond de Andrade, em “Amar se aprende amando”, parece concordar com o criador da teoria psicanalítica. Em um breve poema publicado no primeiro livro que que te presenteei, ele rememora toda a busca de um ser humano por seu amor, o seu consequente encontro e a divisão que dele se constitui até que, enfim, se forme um único ser.

O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
(DRUMMOND, AMAR SE APRENDE AMANDO, 2009, p. 222)

Ou então ainda posso me amparar nas palavras do nosso próprio poeta do “amor”:

Te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño
(NERUDA, CIEN SONETOS DE AMOR, 2011, p. 7)

O desaparecimento da fronteira entre ego e objeto. O sublime selo colorido que unifica as existências. A única maneira de amar de Neruda. Da psicanálise à poesia, tudo parece rodear a ideia de que o “amor” é o desejo de estar dentro do outro de alguma forma. Se os selvagens resolveram essa necessidade com o puro ato sexual, foram os civilizados que criaram novas formas de adentrar na alter-existência por meio do “amor”. Um revestimento de fôlego, beleza, graça e dor.

O “amor”, assim sendo, pode inclusive ser reinterpretado pelo desejo de não apenas estar no outro, mas de pertencer a algo: Neruda amou como poucos a sua América, Caetano Veloso anuncia até hoje o sentimento por pertencer à parte humana que usa a língua portuguesa e os idosos frequentemente observam os anos de sua juventude com uma aura de romantismo e lamúria.

Portanto, sendo o que se acostumou a chamar de “amor” a junção dos desejos de estar no outro, do instinto natural ao revestimento dos sentimentos civilizados e das perturbações consequentes, ele não nos basta. Em primeiro lugar porque, ainda que tenhamos atravessado prazerosamente a fase do “amor”, o desejo hoje não é de estar, mas de perpetuar-se no outro – uma ambição imensa, prazerosa e, na mesma proporção, perturbadora.

Essa, talvez, seja a conclusão mais importante sobre os nossos dois primeiros anos de namoro. No início, “amor” era apenas um verbo. Depois, se tornou um substantivo feliz, um termo viável, uma conclusão importante, uma orientação materna e, enfim, uma fase ultrapassada a partir do momento em que, dentro um do outro, os sentimentos e suas perturbações se intensificaram. A “cristalização” de Stendhal, aparentemente com prazo de validade, operou em uma lógica anormal de continuidade. O jeito de amar de Neruda foi reinterpretado em outras condições climáticas e, possivelmente, a psicanálise possa responder sobre nossa condição após alguns anos de investigação. De fato, não mais nos amamos.

Devo, aqui, ser um pouco mais presunçoso do que costumo ser: foi em fevereiro de 2016 que notei essa possibilidade quando, depois de uma dessas noites intensas que o ainda “amor” proporciona, lhe escrevi um bilhete . Nele, lamentava a incapacidade de encontrar novas formas de expressão do que sentia por você. A confissão era precedida por um breve relato essencialmente amoroso: os corpos tornados um só, os espíritos confusos entre si, as almas abraçadas. O desejo de estar em todas as suas dimensões. Você chorou quando leu e, tempos depois, me revelaria ser a coisa mais bonita entre as coisas que lhe escrevi nesses anos – uma reação que ajuda a explicar esta carta.

Em segundo lugar, não nos basta o “amor” porque não desejamos estar no outro, mas desejamos estar nos outros. Almejamos encontrar uma sobra do fim de semana compartilhado nos funcionários informais da segunda-feira, nas vozes paralelas dos transeuntes ou nas concordâncias que explodem nas bocas de outros conhecidos. Procuramos olhares iguais entre os olhares trocados, sorrisos idênticos entre os sorrisos desconhecidos, trejeitos charmosos entre os trejeitos coletivos. Queremos, enfim, ver nos outros o outro. Ou, no nosso caso, queremos ver um ao outro nos milhões de outros seres humanos existentes.

Não deixa de ser, por sinal, uma perturbação: desejar estar nos outros significa também uma idealização totalitária, em que é possível acreditar que não há nenhum lugar no mundo em que você não esteja. Onde não há você é, justamente, onde há você, porque onde não há você é onde tenho mais necessidade de procurá-la. Novamente, é Neruda quem pode explicar quando diz que

“tú y yo teníamos que simplemente amarnos,
con todos confundidos, con hombres y mujeres,
con la tierra que implanta y educa los claveles”
(NERUDA, CIEN SONETOS DE AMOR, 2011, p. 1)

Nessa superação do “amor” explica-se nossos dois anos de namoro: uma complexa junção (para manter o termo) de incapacidade de expressão sentimental, “cristalização” stendhaliana em uma lógica própria, delimitação de novas fronteiras psicanalíticas do ego, discursos de perpetuação e construção de um único futuro possível em vez de de vários (a viagem à Europa, o nascimento da Flora, as escapadas sexuais aos 40 anos), as barreiras tênues entre o desejo totalitário de presença e um ciúme profundo.

Hoje, dois anos após o primeiro dia em que nos vimos nesta vida, estamos em um limbo inimaginável e só possível na existência terrena a nós dois: não sabemos qual sentimento paira sobre nossa aura – o que impede qualquer nomeação.

É possível ir ao máximo do otimismo e acreditar que atingimos uma nova dobradiça, a da passagem do homem civilizado, do que “ama”, para uma nova categoria humana dotada de um sentimento inédito ainda não catalogado – e que possivelmente exigiria novos saberes e discursos científicos e amorosos. Ou então, podemos simplesmente concordar que, melhor do que se preocupar com todas essas parafernálias amorosas-científicas, o que importa é apenas sentir.

BIBLIOGRAFIA
DRUMMOND, Carlos […] de Andrade. Amar se aprende amando. Companhia das Letras, São Paulo, 2009.

FREUD, Sigmund. Mal-estar na cultura. LP&M, São Paulo, 2010.

MENDES, Vinícius. Bilhete. In: Arimandía. São Paulo, 2016.

NERUDA, Pablo. Cien Sonetos de Amor. CEME, Santiago, Chile, 2011.

STENDHAL. Do Amor. LP&M, São Paulo, 2012.

Episódios da cidade I

Quando o homem chegou equilibrando um suporte de violão nas costas, o velho o esperava com um livro nas mãos e o sorriso dos comerciantes esquecidos no imenso mercado de literatura usada. Entregou-lhe o calhamaço amarelado como se a transação já tivesse decidida por um provável contato anterior a mim, mas antes que o possível comprador tomasse posse do seu novo produto, o velho notou uma primeira resistência grande o suficiente para impedir sua única venda daquele dia.

– Eu vim com o instrumento hoje, então não vou conseguir levar. Posso voltar amanhã pra pegar? – questionou o rapaz. Havia um ar de convencimento entre ele, eu e as obras empilhadas nas gôndolas anciãs.

– Eu não vou estar aqui amanhã – sentenciou o velho – Mas você pode deixar pago e só buscar depois.

Aparentemente, a troca estava feita: havia benefício mútuo das partes, uma admitida e ínfima taxa de lucro, o desejo satisfeito do homem diante da mercadoria e uma solução paralela de pagamento para que ela não deixasse de acontecer.

– É que eu não estou com dinheiro aqui. Só vim com o cartão de débito. Mas olha, senhor, eu quero muito esse livro e volto amanhã para pegá-lo – tentou outra vez o homem. Um silêncio quase palpável entrou pela janela.

– Não precisa. Sabe aquela mulher ali da lanchonete? Vai lá e passa o valor do livro na máquina dela, volta aqui com o comprovante e está tudo certo. Ela é minha amiga – respondeu-lhe o velho.

Definitivamente, Marx estava certo: a mais-valia consegue se ajustar a qualquer situação possível. Voltei-me para um flerte descompromissado com os autores desconhecidos da livraria improvisada, quando o rapaz prosseguiu.

– É que eu não sei se ela passa a bandeira do meu cartão, senhor. Não é qualquer um que aceita Alelo. Mas eu volto amanhã, pode ter certeza! – respondeu.

Claramente impaciente, o velho parecia convencido não pela voz já cínica do rapaz, mas pela necessidade de vender alguma coisa, senão pelo dinheiro, pelo ego de ainda poder contribuir para o PIB do país com a diminuta venda de um livro usado.

– Ela aceita Alelo. Eu almoço lá todos os dias com Alelo – respondeu.

E então, quando eu, o velho, os livros de Proudhon, o silêncio debruçado na janela e uma pomba recém-chegada à calçada não esperávamos nenhuma outra possibilidade que não o ato principal do mercado moderno, do capitalismo em sua essência, ainda que em regras próprias, o homem sentenciou.

– Senhor, eu não quero esse livro.

A Rússia volta ao Caribe

Quase 30 anos após a queda da URSS, doações, financiamentos e apoio ideológico podem mascarar interesses russos na região


Daniel Ortega, então líder da Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN) e já governante da Nicarágua, chega a Moscou para participar do Conselho de Ministros da União Soviética, em 1982

“É a primeira vez que um presidente russo visita a Nicarágua”, afirmou um eufórico Daniel Ortega, presidente do país centro-americano, diante de Vladimir Putin em uma sala abarrotada anexa do aeroporto de Manágua, em julho de 2014. A televisão estatal cobria o encontro ao vivo desde a aparição do avião presidencial no horizonte da cidade até o desembarque do governante da Rússia na pista.

“Estamos muito felizes de recebê-lo em nossa terra”, continuou Ortega. Após os rápidos discursos, ambos se fecharam na mesma sala e tiveram uma reunião de 20 minutos. Então, uma hora após pousar, a aeronave de Putin já levantava voo novamente rumo a Argentina.

A visita não estava prevista na agenda oficial do Kremlin, que incluía apenas encontros com Raúl e Fidel Castro, em Havana, Cristina Kirchner, em Buenos Aires, e Dilma Rousseff, em Brasília, durante os cinco dias de viagens pela região. “A rapidez do encontro serviu apenas para dar ao governo de Ortega a fotografia que ainda não tinha ao lado do seu principal aliado político e econômico desde que chegou ao poder, em 2007”, explica o jornalista francês Fabrice Le Lous, que edita um semanário do jornal La Prensa, um dos poucos independentes do país.

As questões importantes possivelmente já haviam sido tratadas com Serguei Lavrov dois meses antes, quando o chanceler russo ficou algumas horas a mais no país encontrando autoridades locais.

A Rússia e seu presidente voltaram a pairar sobre a Nicarágua há dez anos, quando Daniel Ortega ganhou sua primeira eleição presidencial desde a guerra civil. Logo nos primeiros meses de seu governo, recebeu de Putin doações de 100 mil toneladas de trigo e cerca de 500 ônibus e 500 veículos fabricados pela Lada para modernizar a frota de transporte urbano e de táxis de Manágua. Apesar do discurso oficialista, a oposição se alarmou.

“A maioria dos veículos da imprensa da Nicarágua foi comprada pelo Estado e teve toda a linha editorial modificada. Entre os canais de televisão, quatro são oficialistas. Se você assiste um deles sem conhecer a realidade do país, acha que ele é o melhor do mundo”, conta Le Lous.

No ano da reeleição de Ortega, em julho de 2011, a Rússia voltou a demonstrar apoio aos nicaraguenses: os dos países assinaram um acordo em Moscou que previa doações regulares de trigo catalogadas como “ajuda humanitária”. No ano seguinte, um navio russo desembarcou a primeira remessa de 100 mil toneladas avaliada em US$ 35 milhões no porto de Corinto, no Pacífico. À época, a coordenadora do Conselho de Comunicação e Cidadania e primeira-dama, Rosario Murillo, que hoje também é vice-presidente, afirmou que as doações colaborariam para manter o preço da farinha no mercado interno e, assim, estabilizar a inflação. Em 2015, a Rússia enviaria outras 160 mil toneladas do cereal para a Nicarágua.

As relações generosas entre russos e nicaraguenses, porém, atingiram outras áreas: em projetos paralelos, a Rússia doou ao parceiro centro-americano US$ 37 milhões em dinheiro e prometeu construir um grande hospital em Manágua, cujo plano previa custos em torno de US$ 41 milhões.

Segundo números da Secretaria de Integração Econômica Centro-Americana (Sieca), as exportações da Nicarágua para a Rússia cresceram 178% entre 2006, último ano sem Ortega no poder, e 2010, quando ele já planejava sua reeleição. As trocas comerciais desse tipo passaram de US$ 7,8 milhões em 2006 para US$ 21,7 milhões em 2010.

As importações também tiveram um crescimento significativo: de US$ 24,8 milhões em 2006 para US$ 78,9 milhões em 2012. A diferença entre os seis anos foi de 218%, a maior taxa entre todos os países da América Central. Em casos como o de El Salvador e Guatemala, o volume de importações chegou a cair.

Enfim, o Banco Central da Nicarágua divulgou no ano passado que recebeu US$ 151 milhões em doações russas entre 2007 e 2016, quantias usadas para custear despesas com equipamentos de prevenção de desastres naturais e para o setor agrícola. Deste volume, a maior parte – R$ 119 milhões – foi enviada entre 2011 e 2013, o que representa 79% do total das remessas de Moscou.

Apesar do crescimento desses valores, o professor Rafat Ghotme, do departamento de Relações Internacionais da Universidade Militar Nueva Granada, na Colômbia, acredita que não é possível comparar o “retorno” russo à América Latina com a época da União Soviética, quando financiou e deu apoio político aos regimes de Cuba e da própria Nicarágua. O volume de trocas ainda é muito pequeno, diz ele. “As atividades comerciais estão presentes, ainda que com altos e baixos, durante décadas: por exemplo, a venda de armas a países da América Latina representa menos de 15% das exportações totais de armas provenientes da Rússia”.

“Se é difícil discernir se as relações atuais estão mais focadas no comercial do que no estratégico, se pode dizer que a estratégia diplomática russa não é suficiente em tamanho nem em alcance”, completa.

Aporte militar
Desde o começo do ano passado, a presença russa na Nicarágua passou a chamar a atenção da imprensa internacional pelo crescimento das trocas envolvendo armas e equipamentos de guerra, como tanques e radares. Em junho de 2016, o diário britânico Daily Mail publicou uma extensa reportagem afirmando que os recentes investimentos militares da Rússia no país centro-americano lembravam a Guerra Fria.

Na mesma época, o embaixador nicaraguense em Moscou, Juan Ernesto Vásquez, afirmou em um encontro com empresários e diplomatas, na capital russa, que os dois países estavam no “nível mais alto” de relações políticas da história.

A afirmação de Vásquez levou em conta não apenas a parceria atual, mas as relações com a União Soviética nos anos 1970, quando o governo comunista europeu apoiou financeiramente a guerrilha liderada por Daniel Ortega para derrubar a família Somoza, que estava no poder desde a década de 1920. Com a vitória dos rebeldes de esquerda – chamados de sandinistas –, os soviéticos tentaram estabelecer uma conexão semelhante à que existia com Cuba desde a revolução de Fidel Castro, em 1959. As relações foram rompidas em 1990, ano da queda da URSS e do início da guerra civil na Nicarágua.

As trocas militares começaram em 2013, quando o governo nicaraguense construiu, com o aporte financeiro russo, um campo de treinamento militar em Manágua batizado de Mariscal Zhukov, em homenagem a um chefe militar soviético da Segunda Guerra Mundial. Naquele mesmo ano, os dois países promoveram diversos encontros para tratar da ajuda que a Rússia enviaria ao país centro-americano no controle do crime organizado e do tráfico de drogas. Em 2014, enfim, o parlamento da Nicarágua aprovou a construção de uma estação russa de navegação de satélites em seu território.

Para além da estação, no ano passado o Estado nicaraguense comprou 50 tanques de guerra T-72, quatro lanchas patrulheiras equipadas com metralhadoras, dois barcos com mísseis instalados e um número não divulgado de aviões de combate da Rússia. O pacote foi avaliado em cerca de US$ 80 milhões, mas as especulações dão conta que o país centro-americano, um dos mais pobres da América Latina, não vai pagar nada por eles.

Ainda em abril de 2016, o vice-ministro de Indústria da Rússia, Alexander Morozov, disse que seu país concederia um empréstimo de R$ 250 milhões de dólares à Nicarágua para a aquisição de um sistema de radares, aeronaves e para a modernização do aeroporto da Manágua, além de custear as obras de moinhos para processamento de grãos.

“A relação entre Putin e Ortega não é ingênua. É motivo de suspeitas que haja um interesse claro da inteligência russa escondido sob um discurso de informação pública. As doações de trigo, ônibus, carros e tanques não são de graça. Eles vão cobrar de alguma forma”, disse o general Hugo Torres, que lutou na guerrilha sandinista e hoje é um dos poucos opositores a Ortega, ao diário La Prensa.

Segundo Le Lous, o armamento nicaraguense alertou os países vizinhos, além de criar uma instabilidade nas relações com a Costa Rica, que já é uma rival em discussões sobre demarcações marítimas na Corte de Haia. “Todos os governos ficaram surpresos. Não há nenhuma guerra em vista. O combate ao narcotráfico se dá nas selvas ou no mar, onde não se luta com tanques”, diz. “A Costa Rica chegou a manifestar sua repudia”, completa.

Glonass
Em abril, após anos de obras, a Rússia inaugurou a estação de navegação de satélite que fora aprovada pelo parlamento em 2014 próximo ao lago Nejapa. Trata-se do Glonass (Sistema Global de Navegação por Satélite), uma aposta de Putin para encerrar o monopólio do GPS estadunidense e, de quebra, levantar dúvidas sobre as instalações russas em um território localizado a 3 mil milhas de Washington (5 horas de avião) – a metade disso no caso de Miami, na Flórida.

Segundo o Instituto Nicaraguense de Telecomunicações e Correios (Telcor), as instalações servirão para combater narcotraficantes, prevenir desastres naturais e monitorar mudanças climáticas. Já para uma das poucas fontes que levantam dúvidas sobre o projeto dentro do país, o consultor civil de segurança Roberto Cajina, o excesso de segredos sobre as operações russas em Nejapa são indicações de que o discurso oficial tenta mascarar algo. “Não há informações sobre nada do que se faz ali. É estranho”, diz.

Entre os projetos, estão o de construir um canal semelhante ao do Panamá, historicamente sob domínio dos Estados Unidos, no território nicaraguense. A obra seria financiada com dinheiro chinês e tocada por administradores russos. Nenhum veículo da imprensa internacional conseguiu descobrir quem seria o investidor da China interessado no negócio.

“Não há acesso a informação na Nicarágua. As autoridades não respondem as dúvidas dos jornalistas. Quando algum ministro fala com a imprensa, é demitido no dia seguinte, como aconteceu com María Auxiliadora Chiong, da pasta de Economía Familiar. Portanto, não se sabe nada dos interesses russos no país”, explica o jornalista Fabrice Le Lous.

Os Estados Unidos
O jornal Washington Post foi o primeiro da imprensa estadunidense a mostrar preocupação com a movimentação russa na Nicarágua. Em uma reportagem publicada no mesmo mês da inauguração do Glosnass, o periódico levantou suspeitas de que o projeto tenha o objetivo de espionar manobras estadunidenses ou retaliar a existência de bases militares dos EUA na Europa Oriental. De acordo com o texto, o Departamento de Estado já está alerta sobre a presença dos russos no país centro-americano, e inclusive nomeou funcionários com experiência em diplomacia russa para trabalhar na embaixada de Manágua.

Segundo Rafat, da Universidade de Nueva Granada, a presença da Rússia na Nicarágua é parte de um projeto do Kremlin de reequilibrar novamente o poder com os Estados Unidos, se aproveitando da orientação anti-americana de alguns países, como a Nicarágua e a Venezuela, ou do interesse em estabelecer soberania, como o Equador, gerando desconforto em aliados dos EUA na região, como a Colômbia.

“Moscou tem investido significativamente na região, ainda que o volume do seu comércio, estimado em US$ 14 bilhões de dólares anuais, segue sendo relativamente pequeno se comparado com os quase US$ 300 bilhões de intercâmbio da América Latina com a China”, explica ele.

“Os intercâmbios comerciais da Rússia com a América Latina estão em direta relação com a nova distribuição do poder no sistema internacional contemporâneo: a transição da multipolaridade e equilíbrio em lugar da unipolaridade e da hegemonia estadunidenses”, finaliza.

Estou 46 minutos e os segundos contínuos atrasado. A calçada está repleta de indivíduos que, fora o cimento irregular e os sacos esquecidos de lixo, não compartilham mais nada entre si. Um homem supostamente leva o filho pequeno ao colégio em passos lentos, uma mulher não menos devagar fala sobre o amor ao telefone, uma idosa cheira os legumes de ontem numa quintada improvisada enquanto um conjunto heterogêneo de seres humanos se apinha ao vidro da banca de jornais em busca de falsas manchetes que lhes faça algum sentido. Ninguém observa a proporção dos seus espaços físicos sobre o peatonal, nem as movimentações paralelas sobre as suas costas. Só percebem a si mesmos no mundo, ainda que todos estejam num dos quadrantes mais tumultuados da Avenida São João.

Um dos milhões de pensamentos que me governa propõe que a sociedade poderia estabelecer como regra informal um corredor livre nas calçadas e avenidas destinado aos atrasados. O suposto bom pai, a amante feliz, a avó preocupada e os mal informados sequer notam, mas suas existências momentâneas interferem diretamente na minha: aumentam a ansiedade, a transpiração e, claro, o atraso. As vidas, porém, não se tocam, não se olham, quase não se sabem, de forma que a pressa – outrora inimiga da perfeição – se torna a paixão intensa do egoísmo.

Chego ao trabalho uma hora e vinte e dois minutos depois, sem lembrar minimamente das feições dos meus companheiros de cidade. São só obstáculos que dificultaram o caminho e que serão esquecidos para todo o sempre em menos tempo que o próprio atraso. Eis o egoísmo de todos os dias. Eis, enfim, o maior deles: o meu.

Na verdade, esse entrelaçamento de vidas num entrelaçamento de tempos não poderia dar certo.

Dinheiro encontrado num piso

Era uma antiga nota de dois reais dobrada em duas partes tortas cuja metade de baixo estava silenciosamente presa na sandália gasta pelo tempo calçada por uma mulher perdida na leitura de um livro qualquer de auto-ajuda. Conclui antes de atravessar os bancos vazios do último ônibus do dia, atingir a catraca ainda sem fila, oferecer um boa noite clandestino à cobradora e, enfim, diminuir a distância entre eu, o dinheiro e sua suposta dona.

Nessas horas, os conflitos são inevitáveis: por mais que os soldados da bondade se unam às forças das boas práticas e dos deveres cívicos, eles só existem porque precisam combater o exército do egoísmo, pronto a fazer valer alguma preponderância própria sobre qualquer coisa – naquele caso, a nota de dois reais. Luta desnecessária, penso eu, porque sempre acontece de se tomar dimensão da essência humana e, como árbitro de si mesmo, acabar por se dar a briga por encerrada com a vitória pacífica dos combatentes do bem público.

Resolvi, então, avisá-la do dinheiro momentaneamente perdido, mas o tempo para que a guerra paralela dos atos termine foi suficiente para fazer a mulher dar o sinal ao motorista, fechar o livro, observar que estava atrasada para algum compromisso desconhecido e deixar eu, a nota, o cobrador e os outros seres humanos sozinhos.

Assim, começou outra batalha, dessa vez entre eu e a nota de dois reais, desamparada no chão já sujo da noite, separada abruptamente da bolsa de uma das suas proprietárias do dia, ainda que a intensidade da vida útil de uma cédula seja imensamente distinta dos outros objetos inanimados. O dinheiro é, talvez, a criação humana mais desejada e, ao mesmo tempo, mais sem dono que existe. Sem a mulher, não havia mais ninguém tão próximo da nota quanto eu, que não a possuía até três minutos atrás, quando ela ainda pertencia a uma leitora voraz de auto-ajuda.

Observei os transeuntes. Um homem lia um jornal de ontem. Uma menina ouvia algo num fone improvisado, perceptível porque suas feições denunciavam a irritação de estar ao lado de duas mulheres dialogando em voz alta. Num canto, uma moça mostrava as fotos de uma bebê para seu companheiro momentâneo de viagem. Ninguém percebia, mas havia uma nota de dois reais dobrada, suja e imóvel sobre o piso do ônibus.

O mundo paralelo dos bancos, dos pegadores, das janelas pichadas, da saída de ar aberta pela metade no teto, da cobradora suada pelo calor, permaneceu o mesmo nos vinte minutos entre a Estação Palmeiras-Barra Funda e o Bairro do Limão. Olhei uma última vez para o chão, já cansado das batalhas internas – dessa vez entre esquecer e lembrar que a nota continuava no chão – e a recolhi num gesto abrupto, não sem antes encenar a ninguém uma falsa descoberta da cédula. A prova inevitável foi a falta de reação à cena, mas a apropriação indevida, a propriedade novamente transformada de pública em privada, estimulou uma vergonha que me incapacitou de continuar respirando o mesmo ar que os seus outros distraídos competidores. Avisei ao motorista que desceria no próximo ponto – dois antes da minha parada diária.

Caminhei um quarteirão com os dois reais na mão, suada também pela aflição do ato ilícito, até trombar com um morador de rua rindo de si mesmo num colchão instalado embaixo de uma lotérica.

– Toma esses dois reais e vai tomar um café.

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